segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Algemas de Cristal

Título no Brasil: Algemas de Cristal
Título Original: The Glass Menagerie
Ano de Lançamento: 1950
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros. Pictures
Direção: Irving Rapper
Roteiro: Peter Berneis e Tennessee Williams
Elenco: Jane Wyman, Kirk Douglas, Gertrude Lawrence, Arthur Kennedy, Ralph Sanford e Ann Tyrrell

Sinopse: 
Ambientado em St. Louis durante a década de 1930, o filme acompanha a família Wingfield, formada por Amanda, seu filho Tom e sua filha Laura, uma jovem extremamente tímida que vive mergulhada em seu próprio mundo e encontra conforto em sua pequena coleção de animais de vidro. Abandonada pelo marido, Amanda vive presa às lembranças de sua juventude e preocupa-se constantemente com o futuro dos filhos. Tom trabalha em um emprego de que não gosta para sustentar a família, mas sente-se cada vez mais sufocado pela vida doméstica e sonha em partir em busca de novas experiências. Preocupada com a solidão de Laura, Amanda insiste para que Tom convide um colega de trabalho para jantar. O escolhido é Jim O'Connor, um jovem simpático e popular que desperta imediatamente as esperanças de Amanda. A chegada de Jim transforma o ambiente da casa e proporciona a Laura uma rara oportunidade de superar sua timidez. Durante o encontro, porém, antigas ilusões, expectativas familiares e desejos pessoais começam a entrar em conflito, conduzindo a história para um momento de grande emoção e decepção.

Comentários: 
Algemas de Cristal foi a primeira adaptação cinematográfica de uma peça de Tennessee Williams e levou para as telas uma das obras mais conhecidas do teatro americano. Irving Rapper procurou preservar boa parte da estrutura original, mantendo o foco nos quatro personagens principais e nos conflitos psicológicos da família Wingfield. Jane Wyman apresenta uma atuação delicada como Laura, enquanto Kirk Douglas interpreta Jim O'Connor com um charme que contrasta com a atmosfera melancólica da família. Gertrude Lawrence assume o papel de Amanda, uma mulher presa às lembranças do passado e determinada a encontrar um futuro melhor para os filhos, enquanto Arthur Kennedy interpreta Tom, personagem que funciona também como narrador da história. A fotografia de Robert Burks e a música de Max Steiner contribuem para criar o ambiente intimista do filme. A produção foi realizada pela companhia de Charles K. Feldman e distribuída pela Warner Bros., tendo recebido lançamento em setembro de 1950. O filme possui cerca de 107 minutos e representou uma tentativa de transformar para o cinema uma peça marcada por memórias, simbolismo e forte carga emocional.

A recepção crítica na época foi dividida. A Variety elogiou a adaptação e considerou que o filme conseguia transformar o material teatral em uma produção cinematográfica envolvente, enquanto Bosley Crowther, do The New York Times, foi muito mais crítico, afirmando que algumas cenas aproximavam-se de uma espécie de comédia exagerada e prejudicavam a delicadeza da obra original. O New Yorker, por sua vez, observou que a fidelidade à peça produzia um filme literário e poderoso em seus momentos mais tocantes, embora reconhecesse que a concentração da ação em poucos ambientes poderia tornar algumas passagens monótonas. O próprio Tennessee Williams posteriormente demonstrou insatisfação com a adaptação, especialmente por alterações feitas para oferecer ao público um desfecho mais próximo dos padrões de Hollywood daquele período. Apesar das controvérsias, o filme permanece importante na história das adaptações de Williams e é particularmente interessante pela presença de Jane Wyman, Kirk Douglas e Gertrude Lawrence. Hoje, Algemas de Cristal é lembrado tanto como documento do cinema americano de 1950 quanto como uma das primeiras tentativas de levar Tennessee Williams para a tela grande.

Erick Steve.

Êxito Fugaz

Título no Brasil: Êxito Fugaz
Título Original: Young Man with a Horn
Ano de Lançamento: 1950
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Michael Curtiz
Roteiro: Carl Foreman, Edmund H. North
Elenco: Kirk Douglas, Lauren Bacall, Doris Day

Sinopse:
O jovem Rick Martin (Kirk Douglas) descobre que tem um dom para a música e se apaixona pelo trompete. O lendário trompetista Art Hazzard coloca Rick sob sua proteção e lhe ensina tudo o que sabe sobre como tocar. Rick acaba se tornando um trompetista famoso, mas sua personalidade volátil e seu desejo de tocar jazz em vez das músicas mais convencionais das bandas para as quais trabalha o colocam em uma situação complicada.

Comentários:
O jazz quando surgiu tinha o mesmo aspecto de som revolucionário que o rock iria ter alguns anos depois. Era considerado uma sonoridade da parcela negra e marginal da sociedade, então havia todo aquele preconceito e perseguição que bem conhecemos. Esse filme aqui tenta trazer um retrato desse tempo, focando no personagem de Kirk Douglas que não sabia tocar nenhum instrumento, mas como bom ator que era, passava de forma convincente nas telas de cinema como um músico talentoso. E ele precisa também se decidir entre duas mulheres fortes em sua vida, sendo uma delas a Doris Day quer era naquela época um símbolo de boa moça da sociedade. Enfim, um bom filme cujo roteiro até hoje se mostra bem interessante por causa do contexto cultural em que a história do filme se desenvolve. 

Pablo Aluísio.

Kirk Douglas - Filmografia Selecionada

 
Kirk Douglas - Filmografia Selecionada

Décadas de 1940 e 1950: 
O Tempo Não Apaga
O Invencível
Êxito Fugaz
Algemas de Cristal
A Montanha dos 7 Abutres
Chaga de Fogo
Floresta Maldita
O Rio da Aventura
Assim Estava Escrito
A História de Três Amores
O Malabarista
Mais Forte que a Morte
20.000 Léguas Submarinas
Ulysses
Caminhos sem Volta
Homem sem Rumo
A Um Passo da Morte
Sede de Viver
Lábios Selados
Sem Lei e Sem Alma
Glória Feita de Sangue
Vikings, os Conquistadores
Duelo de Titãs
O Discípulo do Diabo
Anáguas a Bordo

Pesquisa: Pablo Aluísio.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O Moço de Filadélfia

Baseado no romance de Richard Powell, o filme "The Young Philadelphians" conta a história de Anthony Judson Lawrence (Paul Newman), um jovem estudante de direito que sonha em se tornar um dia um grande advogado. Seu pai falecido pertencia a uma das famílias mais ricas da Filadélfia, mas sua mãe o criou como um rapaz humilde, trabalhador, que precisa ganhar a vida também em empregos mais modestos, como na construção civil. Ao se apaixonar por Joan Dickinson (Barbara Rush), filha de um bem sucedido advogado da cidade, Tony começa a construir uma nova vida até que o destino novamente muda praticamente tudo da noite para o dia. Um bom romance dramático que nem é tão lembrado nos dias atuais. Uma pena já que é de fato um filme bem acima da média. Embora haja muitos personagens interessantes desfilando na tela o foco se concentra mesmo na história do jovem Tony Lawrence (Newman). Ele foi fruto de um casamento problemático. Sua mãe era uma jovem comum, de classe mais humilde, que acabou se apaixonando por seu pai, o único herdeiro da grande fortuna de sua família, uma das mais ricas da Filadélfia. Quando ele se casa sofre um verdadeiro colapso emocional, o que o leva a abreviar sua vida de forma trágica (o roteiro não deixa essa aspecto completamente claro, mas fica subentendido que seu pai seria na realidade um homossexual enrustido que foi forçado a se casar para manter as aparências perante a sociedade). Após a morte prematura do pai o garoto Tony passa a ser criado apenas por sua mãe que arranja inúmeros empregos para lhe sustentar.

Os anos passam, Tony se torna um rapaz bonito e inteligente e consegue entrar na faculdade de direito, um velho sonho. Uma vez lá ele finalmente começa a ver as portas se abrindo para seu futuro. Quando conhece a bela Joan (Bush) tudo se completa. Ele está começando sua vida profissional, está apaixonado e seguro que terá um lindo futuro pela frente. O problema é que Joan acaba sucumbindo às pressões de seu pai, um advogado rico e bem sucedido, e resolve largar o honesto, porém pobretão Tony, para se casar com um outro sujeito, cheio de posses e também proveniente de uma rica família como a dela. Ela não o ama, mas mesmo assim sobe ao altar para agradar seus familiares. Embora fique arrasado com esse casamento, Tony decide seguir em frente, subindo cada vez mais na profissão de advogado. Sua prova de fogo na profissão finalmente vem quando seu grande amigo Chester A. Gwynn (Robert Vaughn) é acusado de ter cometido um homicídio. O crime parece envolver figurões da cidade e por essa razão Tony começa a sofrer todos os tipos de pressão. Mesmo assim, dono de uma integridade fora do comum, ele resolve seguir em frente para provar a inocência do amigo, tentando o livrar de uma condenação certa de pena de morte.

Embora possa parecer que seja um drama de tribunal apenas, "The Young Philadelphians" é bem mais do que isso pois procura desenvolver muito bem os sonhos, anseios e lutas de seu protagonista. Assim o destaque não vai apenas para o lado jurídico de sua trama, mas também para o aspecto emocional de seu conturbado relacionamento com a mulher que ama. Tudo embalado por ótimos atuações, em especial Robert Vaughn que interpreta um rapaz bem nascido que acaba vendo sua vida ser destruída após perder um braço na guerra da Coreia e ser acusado de ser um assassino frio e calculista. Sua atuação é realmente digna de todos os aplausos pois ele se entregou completamente ao seu personagem angustiado e sem rumo na vida. Um trabalho que só vem para coroar ainda mais esse belo filme assinado pelo diretor Vincent Sherman. Uma produção particularmente indicada para jovens aspirantes à bela profissão de advogado e também para todas as  pessoas românticas que acreditam que o verdadeiro amor consegue sobreviver a tudo. Vale realmente a pena conhecer mais esse momento da rica carreira do mito imortal Paul Newman.

O Moço de Filadélfia (The Young Philadelphians, Estados Unidos, 1959) Estúdio: Warner Bros / Direção: Vincent Sherman / Roteiro: James Gunn / Elenco: Paul Newman, Robert Vaughn, Barbara Rush, Alexis Smith / Sinopse: Jovem americano passa por um momento crucial em sua vida, tendo que enfrentar uma série de dificuldades pessoais. Filme indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Robert Vaughn). Também indicado ao prêmio máximo da Academia nas categorias de Melhor Fotografia em preto e branco e Melhor Figurino.

Pablo Aluísio.

Gata em Teto de Zinco Quente

Título no Brasil: Gata em Teto de Zinco Quente
Título Original: Cat on a Hot Tin Roof
Ano de Produção: 1958
País: Estados Unidos
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)
Direção: Richard Brooks
Roteiro: James Poe, Richard Brooks
Elenco: Elizabeth Taylor, Paul Newman, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson, Madeleine Sherwood
  
Sinopse:
Com roteiro baseado na peça "Cat on a Hot Tin Roof" de Tennessee Williams, o filme narra o complicado relacionamento entre a jovem Maggie (Elizabeth Taylor) e seu marido Brick Pollitt (Paul Newman). O casamento de ambos está em frangalhos, principalmente por causa do distanciamento que cresce a cada dia entre eles. Para piorar Brick se sente oprimido por viver em uma velha e tradicional casa do sul dos Estados Unidos dominada por um rico proprietário à moda antiga. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Paul Newman), Melhor Atriz (Elizabeth Taylor), Melhor Direção (Richard Brooks), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia (William H. Daniels). Também indicado ao Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme - Drama e Melhor Direção.

Comentários:
O filme foi roteirizado pelo diretor Richard Brooks. Se formos analisar bem sua carreira veremos que ele sempre foi mais um roteirista do que propriamente um diretor. Pois bem, embora Tennessee Williams tenha reclamado de algumas mudanças em seu texto original, temos que convir que o roteiro em si é muito bem escrito e trabalhado, deixando o filme com ótimo ritmo, fugindo da armadilha de o deixar teatral demais.. Penso que os textos de autoria do grande Tennessee Williams eram perigosos ao serem adaptados ao cinema, pois poderiam deixar qualquer filme pesado ou com aspecto de teatro filmado, o que não seria adequado pois artes diferenciadas exigem também adaptações diferentes. Nem sempre o que é adequado ao teatro consegue ser satisfatório na tela. Em "Gata em Teto de Zinco Quente" isso definitivamente não acontece e o espectador ao final da exibição terá a certeza de que assistiu a um grande filme, cinema puro. A produção é elegante, acima de tudo. O enredo se passa todo dentro de um grande casarão que é sede de uma fazendo de algodão no sul dos EUA. Embora isso possa parecer tedioso, não é. Hoje a MGM está à beira da falência, mas naquela época não economizava no bom gosto, como bem podemos comprovar aqui. A fazenda tipicamente sulista, o bonito figurino (especialmente de Liz Taylor) e a fotografia inspirada confirmam a elegância da película.
 
A grande força do filme porém vem de seu elenco maravilhoso. Elizabeth Taylor está linda e talentosa, dominando a cena. Ela  esbanja naturalidade e carisma em cada momento que surge na tela. Paul Newman, que passa o tempo todo de muletas e engessado, também demonstra muito talento no papel de Brick Pollitt, talvez o único personagem com algum valor moral dentro daquela casa. O curioso é que mesmo atores com escolas diferentes (com Newman vindo do teatro e Liz sendo basicamente uma atriz de cinema) conseguem se entender extremamente bem em cena. Sua química salta aos olhos, mesmo Paul Newman interpretando um marido que diante de tantos problemas negligencia sua bela e jovem esposa. Do elenco de apoio tenho que destacar primeiramente Burl Ives (Big Daddy, ótimo em sua caracterização de um homem que não conseguiu passar afeto aos seus familiares durante toda a sua vida) e Madeleine Sherwood (que faz a insuportável Mae Pollitt). Dentre as várias excelentes cenas destacaria aquela que se passa entre Newman e Ives no porão quando em tom de nostalgia Big Daddy se recorda de seu falecido pai, um mero vagabundo. Ali ele se mostra totalmente, sem máscaras, o que de certa maneira também serve para revelar a verdadeira face de sua família. Ótimo momento no quesito atuação. Enfim temos aqui um dos maiores clássicos da era de ouro de Hollywood, com dois de seus grandes astros em plena forma pessoal e dramática. Um filme mais do que clássico, absoluto.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Gata em Teto de Zinco Quente

Gata em Teto de Zinco Quente
Cat on a Hot Tin Roof, conhecido no Brasil como Gata em Teto de Zinco Quente, foi lançado nos Estados Unidos em 29 de agosto de 1958, sob a direção de Richard Brooks, que também escreveu o roteiro ao lado de James Poe, adaptando a peça homônima de Tennessee Williams, vencedora do Pulitzer em 1955. A produção da Metro-Goldwyn-Mayer reuniu um dos elencos mais prestigiosos de Hollywood naquele momento, formado por Paul Newman, Elizabeth Taylor, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson e Madeleine Sherwood. Newman interpretou Brick Pollitt, um ex-astro do futebol americano que se tornou alcoólatra e emocionalmente distante depois da morte de seu melhor amigo, enquanto Taylor interpretou Maggie, sua esposa, uma mulher determinada a recuperar o marido e garantir seu lugar na família. A trama se passa na propriedade rural de Big Daddy Pollitt, poderoso proprietário de terras do Mississippi, que reúne a família para comemorar seu aniversário. Entretanto, por trás da festa existe uma enorme tensão: Big Daddy está gravemente doente, embora inicialmente não saiba toda a extensão de sua condição, e seus filhos disputam silenciosamente a futura herança. Brick permanece indiferente a tudo, refugiando-se na bebida e recusando-se a manter relações conjugais com Maggie. Ao longo de uma única noite e de um intenso confronto familiar, antigos ressentimentos, mentiras, desejos, ciúmes e segredos começam a vir à tona. O resultado foi um dos grandes dramas familiares de Hollywood dos anos 1950.

A reação da crítica americana no lançamento foi fortemente positiva, especialmente em relação às atuações. Bosley Crowther, do The New York Times, escreveu que o elenco praticamente se "destrói" de tanto atuar e gritar, classificando o resultado como um espetáculo "ferocious and fascinating". Crowther também elogiou particularmente Paul Newman, descrevendo-o como um homem jovem, atormentado e posto à prova, enquanto considerou Elizabeth Taylor "terrific" no papel de Maggie. A Variety também foi bastante favorável, chamando o longa de "a powerful, well-seasoned film" e destacando Newman como um dos melhores atores do cinema. O Los Angeles Times, através de Philip K. Scheuer, considerou que a adaptação preservava a força do drama teatral e afirmou que Brooks havia extraído interpretações "stunningly real and varied" de seu elenco. A grande ressalva americana estava relacionada à adaptação do texto de Tennessee Williams. O Código Hays impediu que o filme tratasse abertamente da homossexualidade de Brick e de sua relação emocional com Skipper, elemento fundamental da peça original. Mesmo assim, os críticos reconheceram que a tensão permanecia perceptível por baixo dos diálogos. O filme foi, portanto, simultaneamente considerado uma excelente realização cinematográfica e uma adaptação inevitavelmente censurada de uma obra mais ousada.

Na Europa, especialmente no Reino Unido, a discussão sobre a censura tornou-se ainda mais importante. O The Guardian, em sua análise histórica, observou que a versão cinematográfica havia se tornado muito mais "polite" que a peça, perdendo parte de sua franqueza sobre a homossexualidade. O crítico britânico destacou que o filme transformou aquilo que era uma questão central da peça em uma tensão apenas sugerida. Décadas depois, Peter Bradshaw, também no Guardian, voltou ao filme e afirmou que não era possível assisti-lo sem perceber como a questão da homossexualidade havia sido censurada. Ainda assim, Bradshaw considerou extraordinária a atuação de Elizabeth Taylor, cuja Maggie foi descrita como uma personagem de intensidade "mesmerically feline". Na França, La Chatte sur un toit brûlant também se tornou um filme muito conhecido, embora a avaliação posterior tenha enfatizado justamente aquilo que a censura havia retirado da história. A Cinémathèque Française registra a produção como uma importante adaptação de Tennessee Williams e destaca o conflito familiar, a doença do patriarca e a crise conjugal entre Brick e Maggie. O filme recebeu seis indicações ao Oscar de 1959, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor para Richard Brooks, Melhor Ator para Paul Newman, Melhor Atriz para Elizabeth Taylor, Fotografia em Cores e Roteiro Adaptado. Não venceu nenhuma categoria, mas o número de indicações demonstrou a enorme consideração da Academia pela produção.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 2,3 milhões, Cat on a Hot Tin Roof transformou-se em um extraordinário sucesso comercial. A produção arrecadou cerca de US$ 11,2 milhões, tornando-se o filme de maior bilheteria da MGM em 1958 e o terceiro filme de maior arrecadação daquele ano nos Estados Unidos. O resultado foi particularmente impressionante porque se tratava de um drama adulto, essencialmente concentrado em poucos personagens e em conflitos familiares, sem grandes cenas de ação ou espetáculos típicos das superproduções da época. O principal fator de atração foi a combinação de Paul Newman e Elizabeth Taylor, dois dos maiores símbolos de Hollywood naquele momento. Taylor havia acabado de consolidar sua posição como uma das grandes estrelas do cinema, enquanto Newman estava rapidamente se tornando um dos principais atores de sua geração. O público também foi atraído pelo caráter provocativo da história, mesmo que a censura tivesse suavizado seu conteúdo. A imagem de Taylor como Maggie, frequentemente vestida com roupas extremamente elegantes e sensuais, tornou-se um dos elementos mais memoráveis da publicidade do filme. Newman, por sua vez, apresentou um personagem muito diferente dos heróis convencionais, marcado pelo alcoolismo, pela culpa e pela incapacidade de enfrentar seus sentimentos. A combinação entre sexualidade, riqueza, doença, herança e conflitos familiares fez com que o filme ultrapassasse o público habitual dos dramas teatrais. O resultado comercial comprovou que uma produção baseada em Tennessee Williams poderia ser simultaneamente sofisticada e extremamente popular.

Atualmente, Cat on a Hot Tin Roof é considerado um dos grandes clássicos do cinema americano dos anos 1950 e uma das obras mais importantes das carreiras de Paul Newman e Elizabeth Taylor. O filme mantém 97% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, com mais de três dezenas de avaliações, e 92% de aprovação do público, números que demonstram a extraordinária longevidade de sua reputação. No Metacritic, apresenta 84/100, classificado como "Universal Acclaim", enquanto a avaliação dos usuários permanece em território bastante favorável. A principal crítica contemporânea continua sendo a mesma levantada desde 1958: a adaptação perdeu parte da força da peça de Tennessee Williams ao eliminar praticamente todas as referências explícitas à homossexualidade de Brick. O próprio Williams ficou profundamente insatisfeito com a versão cinematográfica, e Paul Newman também manifestou decepção com a maneira como o material original foi alterado. Entretanto, essa limitação histórica não destruiu o poder dramático do filme. Pelo contrário, a tensão entre o que é dito e aquilo que permanece não dito tornou-se parte fundamental da experiência. A atuação de Newman é hoje reconhecida como uma das mais importantes de sua carreira, enquanto Taylor criou uma Maggie simultaneamente sensual, desesperada, inteligente e determinada. Burl Ives também permanece memorável como Big Daddy, uma figura brutal e vulnerável diante da própria mortalidade. A fotografia de William Daniels, a atmosfera sufocante da mansão e a direção de Brooks completam uma obra que continua fascinando novas gerações. Assim, mesmo sendo uma adaptação censurada, Cat on a Hot Tin Roof sobreviveu ao seu tempo e permanece como um dos grandes dramas familiares da história de Hollywood.

Gata em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof, Estados Unidos, 1958) Direção: Richard Brooks / Roteiro: Richard Brooks e James Poe, baseado na peça Cat on a Hot Tin Roof, de Tennessee Williams / Elenco: Paul Newman, Elizabeth Taylor, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson e Madeleine Sherwood / Sinopse: Durante o aniversário de um poderoso fazendeiro do Mississippi, uma família mergulhada em disputas pela herança é obrigada a confrontar doenças, ressentimentos, ambição e os segredos que destruíram o casamento de Brick e Maggie.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

O Moço de Filadélfia

O Moço de Filadélfia
The Young Philadelphians, lançado no Brasil como O Moço de Filadélfia, chegou aos cinemas em 1959, com direção de Vincent Sherman, cineasta veterano de Hollywood que retornava à Warner Bros. depois de vários anos afastado do estúdio. O filme é baseado no romance The Philadelphian, de Richard P. Powell, publicado em 1956, e teve roteiro de James Gunn, com participação não creditada de Dalton Trumbo em uma etapa da elaboração do texto. A produção foi estrelada por Paul Newman, acompanhado por Barbara Rush, Alexis Smith, Brian Keith, Diane Brewster e Robert Vaughn. Newman interpreta Anthony "Tony" Judson Lawrence, jovem advogado que nasce em circunstâncias socialmente complicadas e decide construir uma carreira capaz de levá-lo à elite da Filadélfia. O filme acompanha sua trajetória desde a juventude, mostrando a influência de sua mãe e as dificuldades provocadas pela diferença de classe entre sua família e os círculos sociais mais ricos da cidade. Tony escolhe o Direito como caminho para ascender socialmente e rapidamente demonstra grande inteligência e ambição. Ao entrar em um importante escritório de advocacia, começa a descobrir que o mundo profissional é tão competitivo e moralmente ambíguo quanto a sociedade que deseja integrar. Sua vida pessoal também é afetada por suas escolhas, especialmente por causa de seu relacionamento com Joan Dickinson, interpretada por Barbara Rush. Quando um velho amigo, Chet Gwynn, vivido por Robert Vaughn, é acusado de assassinato, Tony precisa decidir se continuará seguindo uma carreira baseada exclusivamente em ambição ou se colocará seus princípios em risco para defender alguém que considera injustamente acusado.

A recepção da crítica americana foi mista, com elogios às interpretações e críticas ao excesso de melodrama. A. H. Weiler, do The New York Times, foi particularmente severo e classificou o filme como "sudsy", observando que, embora a produção procurasse fazer um comentário social importante, acabava produzindo apenas uma análise superficial das diferenças de classe. Weiler também considerou que as dificuldades dos ricos e dos pobres poderiam ser igualmente pouco dramáticas quando apresentadas daquela maneira. O Los Angeles Times, através do crítico Philip K. Scheuer, também apresentou reservas: elogiou Robert Vaughn, mas considerou que as demais atuações não eram excepcionais e criticou o ritmo, afirmando que o filme "chuffs and chugs along the Main Line for 130 minutes". Scheuer também considerou a longa sequência do julgamento excessivamente extensa. O New York Daily News, em crítica de Dorothy Masters, foi ainda mais duro, afirmando que a essência do romance de Richard Powell parecia ter "vaporized" na adaptação cinematográfica e que a direção de Sherman provocava mais admiração do que empatia. Apesar dessas críticas, havia reconhecimento de que Paul Newman possuía uma presença cinematográfica muito forte e que o jovem Robert Vaughn oferecia uma atuação especialmente marcante. O filme também era visto como uma produção tecnicamente elegante, beneficiada pela fotografia em preto e branco de Harry Stradling Sr. e pelos figurinos de Howard Shoup. Assim, a crítica contemporânea não rejeitou completamente a obra, mas considerou que o potencial de seu material dramático era maior do que aquilo que Vincent Sherman conseguiu realizar.

Na Europa, a recepção também não transformou The Young Philadelphians em um grande clássico, embora o filme tenha despertado interesse especialmente pela atuação de Paul Newman e pela representação da elite jurídica americana. O longa recebeu no Reino Unido o título The City Jungle, enquanto na França foi conhecido como Ce monde à part, mostrando como seus distribuidores procuraram enfatizar o conflito entre diferentes mundos sociais. A avaliação posterior de críticos europeus tende a ser mais generosa com o filme do que algumas das críticas americanas de 1959. O alemão Lexikon des internationalen Films, por exemplo, resumiu a obra como uma adaptação literária "socialmente crítica", valorizando o elenco e a tentativa de abordar as diferenças de classe. Revisões posteriores também passaram a observar aspectos que dificilmente poderiam ser discutidos abertamente no período de lançamento, especialmente a representação de sexualidade, masculinidade e pressão social. O filme recebeu um reconhecimento importante na temporada de premiações de 1960: foi indicado a três Oscars, nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante, para Robert Vaughn, Melhor Fotografia em Preto e Branco, para Harry Stradling Sr., e Melhor Figurino em Preto e Branco, para Howard Shoup. Nenhum deles venceu, pois o Oscar de Ator Coadjuvante ficou com Hugh Griffith por Ben-Hur. Robert Vaughn também recebeu indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, prêmio que foi conquistado por Stephen Boyd por Ben-Hur. A indicação de Vaughn foi especialmente importante para sua carreira, pois o papel de Chet Gwynn chamou a atenção da indústria e ajudou a colocá-lo no caminho que posteriormente o levaria a The Magnificent Seven e à televisão em The Man from U.N.C.L.E..

Com duração de aproximadamente 2 horas e 16 minutos, The Young Philadelphians foi uma produção de prestígio da Warner Bros., embora os dados disponíveis atualmente não apresentem um orçamento oficial confiável. O desempenho comercial, entretanto, foi considerado bem-sucedido, contribuindo para consolidar Paul Newman como uma das grandes estrelas jovens de Hollywood. Estimativas históricas apontam para aproximadamente US$ 2,8 milhões em aluguel cinematográfico nos Estados Unidos e Canadá, um resultado significativo para um drama adulto em preto e branco daquele período. O filme chegou inclusive ao primeiro lugar em levantamentos semanais de bilheteria americanos durante sua carreira comercial, demonstrando que havia interesse considerável do público pela história e, principalmente, pelo crescente estrelato de Newman. O público também encontrou no filme elementos bastante atraentes: ascensão social, romance, conflitos familiares, corrupção profissional e um grande julgamento criminal. A transformação de Tony Lawrence de jovem ambicioso em advogado capaz de enfrentar as elites que anteriormente desejava impressionar oferecia uma estrutura narrativa clássica de ascensão e crise moral. Robert Vaughn, por sua vez, acrescentava uma dimensão trágica ao filme através de Chet Gwynn, veterano da Guerra da Coreia que retorna emocionalmente destruído e acaba envolvido em uma acusação de assassinato. A presença de Adam West, em uma pequena participação anterior à sua fama como Batman, também é uma curiosidade apreciada pelos admiradores do cinema clássico. Embora não tenha sido um fenômeno de bilheteria comparável aos grandes épicos de 1959, o resultado foi suficientemente forte para demonstrar que Newman já possuía enorme poder de atração junto ao público.

Atualmente, The Young Philadelphians ocupa uma posição interessante dentro da filmografia de Paul Newman. Não costuma ser colocado entre suas obras-primas, mas é considerado por muitos admiradores um drama jurídico e social subestimado, especialmente por registrar Newman em uma fase importante de sua carreira, pouco antes de filmes como Exodus, The Hustler e Hud. A avaliação contemporânea é mais favorável do que a recepção crítica original em alguns aspectos. No Rotten Tomatoes, o filme apresenta atualmente 71% de aprovação da crítica, embora baseado em apenas sete avaliações, e 80% de aprovação do público. No IMDb, mantém uma avaliação de aproximadamente 7,4/10, indicando que continua encontrando admiradores entre os espectadores modernos. Críticos posteriores costumam reconhecer que o melodrama envelheceu e que algumas situações parecem excessivamente artificiais, mas também destacam a força do elenco e, principalmente, a sequência final do julgamento. Robert Vaughn é frequentemente apontado como um dos grandes destaques da produção, e sua indicação ao Oscar permanece como a principal distinção individual do filme. O próprio tema da ascensão social de Tony Lawrence ganhou interesse retrospectivo porque apresenta uma sociedade em que riqueza, sobrenome e relações pessoais exercem enorme influência sobre as oportunidades profissionais. A questão da ética na advocacia também dá ao filme uma dimensão particularmente interessante para espectadores contemporâneos. Dessa maneira, embora The Young Philadelphians não tenha alcançado o status de clássico absoluto de Hollywood, continua sendo uma obra relevante para compreender a evolução de Paul Newman e a tradição dos dramas jurídicos americanos. Sua mistura de melodrama, crítica social e tribunal faz dele um filme que merece ser redescoberto, sobretudo por quem aprecia o cinema americano dos anos 1950 e os primeiros grandes trabalhos de Newman.

O Moço de Filadélfia (The Young Philadelphians, Estados Unidos, 1959) Direção: Vincent Sherman / Roteiro: James Gunn e Dalton Trumbo, baseado no livro The Philadelphian, de Richard P. Powell / Elenco: Paul Newman, Barbara Rush, Alexis Smith, Brian Keith, Diane Brewster e Robert Vaughn / Sinopse: Um jovem advogado determinado a conquistar seu lugar na elite da Filadélfia precisa escolher entre continuar sua ascensão profissional ou arriscar a carreira para defender um amigo acusado de assassinato.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

A Delícia de um Dilema

A Delícia de um Dilema
Rally 'Round the Flag, Boys!, conhecido no Brasil como A Delícia de um Dilema, foi lançado originalmente em 23 de dezembro de 1958, em Nova York, chegando ao circuito nacional americano em fevereiro de 1959. A direção ficou a cargo de Leo McCarey, veterano da comédia americana e responsável por clássicos como The Awful Truth e Duck Soup, que também produziu e escreveu o roteiro ao lado de Claude Binyon. O filme foi realizado pela 20th Century-Fox, em CinemaScope e Technicolor, e adaptou o romance homônimo de Max Shulman, publicado em 1957. O elenco era especialmente atraente para o público da época, reunindo Paul Newman, Joanne Woodward, Joan Collins, Jack Carson, Dwayne Hickman e Tuesday Weld. Newman e Woodward, que haviam se casado pouco antes da produção, interpretam o casal Harry e Grace Bannerman, dando ao filme uma dimensão curiosamente próxima da vida real dos atores. A história se passa em Putnam's Landing, uma pequena comunidade suburbana de Connecticut que tem sua rotina perturbada quando o Exército decide instalar nas proximidades uma base secreta de mísseis. Grace Bannerman, extremamente envolvida nas atividades cívicas da cidade, organiza uma campanha contra a instalação militar e acaba colocando o marido, especialista em relações públicas, no centro da crise. Harry é então encarregado de negociar com os militares e, ao mesmo tempo, precisa enfrentar a presença sedutora de Angela Hoffa, sua vizinha interpretada por Joan Collins. O resultado é uma comédia de costumes que mistura casamento, adultério, política local, Guerra Fria, patriotismo, suburbanização e uma série de situações absurdas.

A reação da crítica americana na época foi mista, e essa divisão se explica em grande parte pela própria natureza do filme. Bosley Crowther, do The New York Times, foi relativamente favorável ao aspecto cômico e resumiu sua avaliação afirmando que Rally 'Round the Flag, Boys! "is no epic. But it's good for laughs", ou seja, não era uma obra grandiosa, mas proporcionava boas risadas. A Variety também encontrou qualidades na produção e destacou que algumas das piadas eram elaboradas e cuidadosamente cronometradas, "as carefully timed as a dance sequence". O problema, segundo parte dos críticos, era que McCarey parecia dividido entre uma comédia romântica tradicional e uma sátira política sobre a paranoia militar da Guerra Fria. O filme também tinha uma quantidade considerável de diálogos e situações episódicas, o que fazia com que a narrativa parecesse menos ágil do que as melhores comédias screwball do diretor. O Turner Classic Movies observa justamente que muitas cenas dependem de diálogos longos e de personagens praticamente parados, algo que prejudicava o ritmo frenético normalmente associado à tradição da screwball comedy de McCarey. Ainda assim, o prestígio de Paul Newman estava em ascensão naquele momento, depois de The Long, Hot Summer e Cat on a Hot Tin Roof, ambos de 1958, e isso ajudou a despertar interesse pelo lançamento. A crítica americana, portanto, não tratou o filme como um desastre, mas tampouco o colocou entre os grandes trabalhos de McCarey. A impressão predominante foi a de uma comédia irregular, com bons momentos, excelente elenco e algumas situações genuinamente engraçadas, mas incapaz de alcançar a consistência dos melhores trabalhos do diretor.

Na Europa, a avaliação também foi longe de ser unânime, embora o filme tenha despertado posteriormente interesse entre historiadores e estudiosos da comédia americana. No Reino Unido, a produção não alcançou o mesmo prestígio crítico de outras obras americanas do período, sendo frequentemente lembrada mais como uma comédia tardia de McCarey do que como um clássico absoluto. A perspectiva posterior do cinema britânico foi particularmente interessante porque passou a enxergar no filme um retrato involuntário da sociedade americana do final dos anos 1950, marcada pela prosperidade suburbana, pelo medo nuclear e pela Guerra Fria. Na França, a redescoberta do longa foi igualmente ambígua. O Critikat, ao analisar o filme décadas depois, descreveu a produção como uma comédia "aussi fantaisiste que débridée" sobre os excessos do conservadorismo americano dos anos 1950, reconhecendo sua natureza peculiar e seu caráter satírico. Essa avaliação posterior é importante porque ajuda a explicar por que o filme acabou sendo mais interessante para historiadores do cinema do que sua recepção inicial poderia sugerir. O longa mistura a tradição da comédia screwball com temas que estavam profundamente ligados à realidade americana daquele momento, como bases militares, corrida armamentista, medo de ataques nucleares e a transformação das pequenas cidades em subúrbios. Ao mesmo tempo, a crítica europeia também percebeu que a sátira nem sempre era suficientemente afiada e que McCarey frequentemente preferia o humor físico e os conflitos conjugais à análise política. O filme não recebeu indicações ao Oscar nem conquistou grandes prêmios internacionais, embora Leo McCarey tenha posteriormente recebido uma indicação do Directors Guild of America pelo trabalho de direção. Sua trajetória de premiações, portanto, foi modesta, e o reconhecimento mais duradouro acabou vindo da importância histórica do elenco e da carreira de seu diretor.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 1,9 milhão, Rally 'Round the Flag, Boys! era uma produção relativamente importante para uma comédia de 1958, especialmente por utilizar o formato CinemaScope e reunir estrelas em ascensão. O filme obteve cerca de US$ 3,4 milhões em aluguel cinematográfico nos Estados Unidos e Canadá, segundo os dados históricos associados à produção, o que indica que conseguiu recuperar seu investimento e alcançar um resultado comercial razoável. Não existem números internacionais confiáveis e amplamente documentados que permitam estabelecer uma renda mundial comparável aos padrões atuais, algo comum em produções americanas dos anos 1950. O desempenho comercial foi impulsionado principalmente pela popularidade de Paul Newman e pelo interesse despertado pela parceria cinematográfica entre Newman e Joanne Woodward. O público encontrou no filme uma combinação de comédia conjugal, situações de adultério, humor militar e uma sátira relativamente leve da vida suburbana. A presença de Joan Collins como a sensual Angela Hoffa também funcionou como importante elemento de atração comercial. Entretanto, a recepção popular não foi suficientemente entusiasmada para transformar o longa em um dos grandes sucessos da década. As avaliações atuais do público são relativamente modestas: o Rotten Tomatoes registra 45% de aprovação dos espectadores, enquanto o IMDb apresenta aproximadamente 5,9/10. Isso mostra que o filme conquistou uma parcela do público, mas não desenvolveu uma reputação popular comparável à de outras comédias de McCarey. Seu maior valor comercial acabou sendo também histórico: capturou Paul Newman em um momento muito específico de sua ascensão ao estrelato e reuniu o futuro casal Newman-Woodward em uma comédia pouco lembrada de suas carreiras.

Atualmente, Rally 'Round the Flag, Boys! ocupa uma posição bastante curiosa dentro da filmografia de Leo McCarey. Não é geralmente considerado um de seus melhores filmes e está muito distante do prestígio de The Awful Truth, Going My Way ou Make Way for Tomorrow. O Rotten Tomatoes apresenta apenas 30% de aprovação da crítica, baseado em dez avaliações, com média de 5/10, confirmando que a obra permanece controversa entre os críticos contemporâneos. Entretanto, algumas revisões modernas passaram a observar características que talvez não fossem tão evidentes em 1958. O estudo publicado pelo MUBI Notebook considera o filme uma produção esquecida que mistura diversos elementos da sociedade americana do final dos anos 1950 e identifica momentos de verdadeiro encanto dentro de uma narrativa irregular. Historiadores também destacam a maneira como McCarey recupera elementos da comédia screwball, colocando um casal em crise diante da presença de uma terceira pessoa sedutora, mas acrescentando ao modelo tradicional a tensão política da Guerra Fria. Nesse sentido, o filme pode ser visto hoje como um documento cultural particularmente interessante sobre a América de Eisenhower, mais do que simplesmente como uma comédia bem-sucedida. A preocupação com bases de mísseis, a presença do Exército na comunidade, a obsessão pela respeitabilidade social e a sexualidade tratada de maneira relativamente ousada revelam muito sobre os valores e medos daquela sociedade. Também é importante observar que Paul Newman e Joanne Woodward haviam se casado pouco antes da produção, acrescentando um elemento curioso à dinâmica romântica do filme. Dessa forma, embora não seja hoje considerado um clássico essencial, Rally 'Round the Flag, Boys! merece ser redescoberto por admiradores de Newman, Woodward, Joan Collins e da comédia americana clássica, além de oferecer um retrato bastante singular da sociedade americana durante a Guerra Fria.

A Delícia de um Dilema (Rally 'Round the Flag, Boys!, Estados Unidos, 1958) Direção: Leo McCarey / Roteiro: Claude Binyon e Leo McCarey, baseado no livro Rally 'Round the Flag, Boys!, de Max Shulman / Elenco: Paul Newman, Joanne Woodward, Joan Collins, Jack Carson, Dwayne Hickman e Tuesday Weld / Sinopse: Quando o Exército escolhe sua pequena cidade para instalar uma base secreta de mísseis, uma dona de casa decide liderar a resistência local, enquanto seu marido tenta negociar com os militares e se vê envolvido em uma perigosa confusão conjugal provocada por uma vizinha sedutora.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

domingo, 30 de agosto de 2026

As Cartas de Grace Kelly - Parte 6

Em 1951 Grace Kelly aceitou o convite para ir até Hollywood filmar um novo faroeste que iria se chamar "Matar ou Morrer". Ela teve um certo desejo de não aceitar o convite porque afinal de contas estava se dando muito bem em Nova Iorque, trabalhando como modelo e como atriz em peças na Broadway e em teleteatros filmados que eram exibidos nos canais de TV. Tudo corria maravilhosamente perfeito, mas seu agente lhe disse que um convite como aquele não poderia ser recusado. Outro ponto que a fez recuar um pouco foi o fato de que o filme seria um faroeste ao velho estilo, estrelado pelo astro do gênero Gary Cooper. Ela não tinha pretensões de fazer filmes desse estilo. Porém, mesmo com certa hesitação, ela terminou assinando o contrato para fazer o filme.

Assim, até meio a contragosto, ela finalmente arranjou três semanas livres e voou até Los Angeles. Acabou encontrando um set de filmagens com um diretor muito estressado pois o cineasta Fred Zinnemann era detalhista ao extremo, No elenco ela encontro um amigo, o ator Gary Cooper, que aos 51 anos era um veterano das telas, com décadas de carreira em Hollywood. Enquanto isso Grace era apenas uma novata esforçada, aos 21 anos de idade. Apesar da diferença de gerações (afinal ele tinha idade para ser o pai dela), as coisas fluíram muito bem entre eles. O que começou com uma amizade sincera entre dois colegas de trabalho acabou se tornando algo mais.

Grace Kelly levou o romance das telas para a vida real. Ela teve um romance com o cinquentão Cooper, que dono de uma personalidade bem tímida e retraída, nunca ficou muito confortável com aquela situação. Na verdade o ator ficou em dúvida se aquela jovem queria tirar algum proveito dele ou se realmente tinha um verdadeiro sentimento no relacionamento que começou bem no meio das filmagens. De uma forma ou outra o próprio Cooper resolveu acabar com o breve romance. Ele disse a Grace Kelly, já perto do fim das filmagens, que já tinha vivido muito para saber que algo como aquilo não tinha muito futuro. Assim de forma educada e gentil resolveu encerrar o romance. Ele gostava de cultivar a imagem de homem honrado dentro da comunidade em Hollywood. Um caso com uma atriz tão jovem não iria pegar bem.

Nos anos que viriam Grace Kelly iria se relacionar com muitos atores com quem trabalharia. Ela parecia ter um tipo de fetiche em namorar os grandes astros de Hollywood, por isso acabou ficando conhecida por ser muito namoradeira na época. Só um grande astro resistiu ao seu charme. Apesar de todos os esforços Grace Kelly não conseguiu conquistar o homem que ela considerava perfeito: Rock Hudson. Grace ficou apaixonadíssima por ele, pois era alto, bonito e tinha um ótimo carisma, se revelando simpático e muito acessível. O que Grace não sabia (poucos sabiam disso em Hollywood) era que Hudson era gay e escondia isso do estúdio e do público em geral. Afinal segredos eram para ser bem guardados.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Disque M Para Matar

Disque M Para Matar
Esse filme é outro clássico do mestre do suspense Alfred Hitchcock. Ele criou um excelente clima com um enredo relativamente até bem simples. Na trama temos a figura de Margot Mary Wendice (Grace Kelly). Ela é uma jovem esposa que começa a se decepcionar com seu casamento. A rotina e o tédio acabam destruindo suas esperanças de viver um matrimônio feliz. Após longos anos de união, ela começa a ter um caso amoroso extraconjugal com um grande amor de seu passado, o escritor de romances policiais Mark Halliday (Robert Cummings). Ambos estão muito apaixonados e começam a trocar cartas de amor. Eventualmente uma delas vai parar nas mãos do marido traído, Tony (Ray Milland).

Fingindo não saber de absolutamente nada, ele então planeja uma forma de matar a esposa infiel para de quebra se tornar o único herdeiro de sua fortuna. Para colocar em prática sua artimanha criminosa, resolve chantagear um antigo colega de universidade, Swan (Anthony Dawson), que agora vive de explorar mulheres idosas, ricas e solitárias. Enquanto se garante com um álibi, em um evento social, seu comparsa deve entrar em sua casa para asfixiar sua esposa, tentando passar a ideia de que tudo foi apenas um roubo mal sucedido. No começo tudo ocorre bem até que algo acaba não saindo como havia sido inicialmente planejado.

Que Alfred Hitchcock foi um dos grandes gênios do cinema ninguém mais duvida. O diretor tinha um talento incomum para contar enredos sórdidos de uma maneira toda especial. Na superfície, seus personagens viviam em uma espécie de conto de fadas moderno, onde todos eram ricos, felizes e bonitos. Por debaixo dessa aparente normalidade se escondia os mais terríveis sentimentos mesquinhos. Veja o caso do casal formado por Mary (Kelly) e Tony (Milland). Ela é uma bem sucedida mulher, loira e linda, que não desperta suspeitas. Todos pensam ser a esposa ideal. Ele é um ex-tenista, agora aposentado, que se diz muito feliz em se dedicar completamente à esposa e seus caprichos. Um casal realmente perfeito a admirável. Isso é o que a sociedade pensa ser a verdade.

Por debaixo de tudo se esconde uma mulher infeliz com seu casamento de fachada, a ponto de nutrir um amor secreto e inconfessável. Na verdade ela não sente nenhum carinho ou afeição pelo marido e morre mesmo de amores por um antigo amor, um escritor de tramas policiais. Como não pode assumir esse seu sentimento proibido publicamente, começa a ter encontros escondidos com o amante. O marido, que sempre aparentou ser um homem muito educado e fino, um verdadeiro gentleman, acaba descobrindo a traição de sua jovem esposa, mas ao invés de se divorciar em um escandaloso rompimento perante a sociedade ele resolve ir por um caminho mais sutil e... fatal. Ele entra em contato com um antigo conhecido da universidade, um sujeito que não conseguiu se dar bem na vida, vivendo de pequenos e grandes golpes, explorando mulheres velhas e ricas. Um verdadeiro escroque.

A intenção é clara, o sujeito deve matar sua esposa infiel, em sua própria casa, enquanto ele, o marido, surge numa festa, na frente de todos, o que o livraria de uma eventual acusação de tê-la matado. Para atrair ela até um quarto escuro de sua casa, onde o assassino cometerá o crime, Tony usa o telefone. Assim que Margot o atender deverá ser assassinada. Aqui Hitchcock expõe todos os detalhes do plano e depois dos acontecimentos que vão surgindo em decorrência de vários imprevistos. O personagem Tony (Ray Milland) é extremamente inteligente e consegue armar contra todos, inclusive enganando os experientes inspetores da polícia. Tudo acaba caminhando muito bem, mesmo que por linhas tortas, até um pequeno, quase invisível detalhe, colocar tudo a perder. Esse roteiro pode ser descrito como um intrigado caso criminal, baseado muitas vezes em um tipo de suspense mais intelectual, apelando quase sempre para a perspicácia do espectador, que deve ficar bem atento para não perder nenhum detalhe. Nesse aspecto é certamente um dos grandes filmes da carreira do mestre. É um clássico absoluto do suspense na história da sétima arte.

Disque M Para Matar (Dial M for Murder, Estados Unidos, 1954) Estúdio: Warner Bros / Direção: Alfred Hitchcock /Roteiro: Frederick Knott / Elenco: Grace Kelly, Ray Milland, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson / Sinopse: Marido planeja matar a esposa infiel contando com a colaboração de um amigo. Tudo é minuciosamente planejado. Porém dar certo como previsto já seria uma outra história completamente diferente. Filme indicado ao BAFTA Awards na categoria de Melhor Atriz (Grace Kelly).

Pablo Aluísio.