segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Chaga de Fogo

Título no Brasil: Chaga de Fogo
Título Original: Detective Story
Ano de Lançamento: 1951
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: William Wyler
Roteiro: Philip Yordan, Robert Wyler
Elenco: Kirk Douglas, Eleanor Parker, William Bendix, Cathy O'Donnell, George Macready, Horace McMahon

Sinopse:
O filme mostra um dia de trabalho na vida de um investigador de uma delegacia de polícia em Nova Iorque. Ao longo do dia ele precisa lidar com uma série de criminosos diversos. O jovem que roubou do próprio patrão para gastar com sua namorada fútil. O médico rico e renomado que fazia abortos. Uma dupla de arrombadores de apartamentos e até mesmo uma garota, pega no flagra, roubando uma loja de departamentos. Filme indicado ao Oscar nas categorias de melhor direção e melhor roteiro. 

Comentários:
Um bom clássico da carreira do ator Kirk Douglas. A primeira coisa que me chamou a atenção foram as longas tomadas de cena. Como a história se passa toda dentro de uma delegacia de polícia os eventos vão acontecendo ao mesmo tempo e praticamente não há cortes de edição. Quase um teatro filmado. Mostra bem como o elenco era bom, mesmo em grandes sequências eles não perdiam o fio da meada e nem esqueciam os extensos diálogos. Como destaque e não poderia ser diferente, temos um talentoso Kirk Douglas. Ele interpreta um daqueles detetives durões dos filmes antigos. O tempo todo ele precisa ser parado por seu superior pois sua vontade seria a de acertar socos certeiros na cara de todos aqueles criminosos que pegou. E no final ele acaba descobrindo que sua própria esposa estaria envolvida nos crimes de um médico de uma clínica clandestina de aborto. O detalhe cruel é que ele nem sabia disso e o filho era de outro homem! Claro que sua casa cai depois disso. Um filme realmente muito bom, valorizado pelo final trágico que surpreendeu muita gente na época. Mesmo com todo o moralismo machista da época, o filme ainda se sustenta muito bem nos dias de hoje! 

Pablo Aluísio.

A Montanha dos Sete Abutres

A Montanha dos Sete Abutres
Há momentos em que os deuses do cinema parecem estar em estado de graça. Unir um diretor genial como Billy Wilder com um ator excepcional como Kirk Douglas não poderia dar em outra coisa. Esse clássico "A Montanha dos Sete Abutres" é uma verdadeira obra-prima da sétima arte. O enredo é um retrato puro e até mesmo cruel da alma do ser humano. Aqui visto sob o lado mais sórdido de cada personagem em cena. O brilhante roteiro serve para mostrar as reais intenções de certas pessoas que não estão preocupadas em ajudar os outros, mesmo que esses passem por momentos cruciais na vida, mas sim em como podem explorar uma situação limite em proveito próprio, passando por cima de todos os valores e de todos os sentimentos nobres. A trama explora muito bem esse aspecto. Chuck Tatum (Kirk Douglas) é um jornalista decadente que após ter trabalhado em grandes jornais de Nova Iorque vai parar em um jornalzinho de Albuquerque, bem no interior dos Estados Unidos. É uma queda e tanto na carreira. Tudo o que Tatum deseja é encontrar uma boa história para levantar novamente sua vida profissional. E ela surge, quase por acaso, após um homem ficar preso soterrado numa velha mina, construída em cima de um antigo cemitério indígena. Não demora muito e Tatum transforma o acontecimento em um verdadeiro circo, causando uma comoção na mídia nacional. Para ele o que importa não é o destino do pobre sujeito soterrado, mas sim o proveito pessoal que poderá tirar daquela tragédia.

O filme é bem isso. Um maravilhoso e ao mesmo tempo cruel tratado sobre a sordidez humana. Assim de forma bem simples poderíamos resumir esse grande clássico de Billy Wilder, "Ace in the Hole", sem dúvida um de seus mais brilhantes e inspirados trabalhos. Os personagens que o cineasta explora em seu roteiro formam o retrato da ambição humana sem limites, um conjunto de pessoas desprezíveis que só pensam em si mesmas e não hesitam em explorar a desgraça alheia em prol de seu proveito próprio. O jornalista interpretado por Kirk Douglas certamente é o mais perfeito retrato disso, um sujeito que só deseja o sucesso pessoal a qualquer custo, mesmo que isso custe a vida de um inocente.

A esposa do pobre sujeito soterrado, a falsa loira Lorraine Minosa (em ótima atuação da atriz Jan Sterling), é uma figura desalmada, mesquinha, má e interesseira que causa asco e nojo no espectador. Nessa tríade de gente ordinária não escapa nem mesmo o xerife da cidade, incorporando todas as corrupções que você possa imaginar. Billy Wilder assim procura mostrar ao público o lado mais desprezível de todos eles. O valor da vida humana é mera peça no tabuleiro de interesses vis e sórdidos. No final o que temos aqui é um retrato nada lisonjeiro da alma humana e uma prova maravilhosa do talento desse grande cineasta. É, em suma, um filme indispensável para se guardar em sua coleção.

A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, Estados Unidos, 1951) Estúdio: Paramount Pictures / Direção: Billy Wilder / Roteiro: Billy Wilder, Lesser Samuels, W. Newman / Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Robert Arthur / Sinopse: Jornalista inescrupuloso e mau-caráter começa a explorar de forma vil uma tragédia para levantar sua carreira decadente. Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro Original (Billy Wilder, Lesser Samuels e Walter Newman).

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Algemas de Cristal

Título no Brasil: Algemas de Cristal
Título Original: The Glass Menagerie
Ano de Lançamento: 1950
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros. Pictures
Direção: Irving Rapper
Roteiro: Peter Berneis e Tennessee Williams
Elenco: Jane Wyman, Kirk Douglas, Gertrude Lawrence, Arthur Kennedy, Ralph Sanford e Ann Tyrrell

Sinopse: 
Ambientado em St. Louis durante a década de 1930, o filme acompanha a família Wingfield, formada por Amanda, seu filho Tom e sua filha Laura, uma jovem extremamente tímida que vive mergulhada em seu próprio mundo e encontra conforto em sua pequena coleção de animais de vidro. Abandonada pelo marido, Amanda vive presa às lembranças de sua juventude e preocupa-se constantemente com o futuro dos filhos. Tom trabalha em um emprego de que não gosta para sustentar a família, mas sente-se cada vez mais sufocado pela vida doméstica e sonha em partir em busca de novas experiências. Preocupada com a solidão de Laura, Amanda insiste para que Tom convide um colega de trabalho para jantar. O escolhido é Jim O'Connor, um jovem simpático e popular que desperta imediatamente as esperanças de Amanda. A chegada de Jim transforma o ambiente da casa e proporciona a Laura uma rara oportunidade de superar sua timidez. Durante o encontro, porém, antigas ilusões, expectativas familiares e desejos pessoais começam a entrar em conflito, conduzindo a história para um momento de grande emoção e decepção.

Comentários: 
Algemas de Cristal foi a primeira adaptação cinematográfica de uma peça de Tennessee Williams e levou para as telas uma das obras mais conhecidas do teatro americano. Irving Rapper procurou preservar boa parte da estrutura original, mantendo o foco nos quatro personagens principais e nos conflitos psicológicos da família Wingfield. Jane Wyman apresenta uma atuação delicada como Laura, enquanto Kirk Douglas interpreta Jim O'Connor com um charme que contrasta com a atmosfera melancólica da família. Gertrude Lawrence assume o papel de Amanda, uma mulher presa às lembranças do passado e determinada a encontrar um futuro melhor para os filhos, enquanto Arthur Kennedy interpreta Tom, personagem que funciona também como narrador da história. A fotografia de Robert Burks e a música de Max Steiner contribuem para criar o ambiente intimista do filme. A produção foi realizada pela companhia de Charles K. Feldman e distribuída pela Warner Bros., tendo recebido lançamento em setembro de 1950. O filme possui cerca de 107 minutos e representou uma tentativa de transformar para o cinema uma peça marcada por memórias, simbolismo e forte carga emocional.

A recepção crítica na época foi dividida. A Variety elogiou a adaptação e considerou que o filme conseguia transformar o material teatral em uma produção cinematográfica envolvente, enquanto Bosley Crowther, do The New York Times, foi muito mais crítico, afirmando que algumas cenas aproximavam-se de uma espécie de comédia exagerada e prejudicavam a delicadeza da obra original. O New Yorker, por sua vez, observou que a fidelidade à peça produzia um filme literário e poderoso em seus momentos mais tocantes, embora reconhecesse que a concentração da ação em poucos ambientes poderia tornar algumas passagens monótonas. O próprio Tennessee Williams posteriormente demonstrou insatisfação com a adaptação, especialmente por alterações feitas para oferecer ao público um desfecho mais próximo dos padrões de Hollywood daquele período. Apesar das controvérsias, o filme permanece importante na história das adaptações de Williams e é particularmente interessante pela presença de Jane Wyman, Kirk Douglas e Gertrude Lawrence. Hoje, Algemas de Cristal é lembrado tanto como documento do cinema americano de 1950 quanto como uma das primeiras tentativas de levar Tennessee Williams para a tela grande.

Erick Steve.

Êxito Fugaz

Título no Brasil: Êxito Fugaz
Título Original: Young Man with a Horn
Ano de Lançamento: 1950
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Michael Curtiz
Roteiro: Carl Foreman, Edmund H. North
Elenco: Kirk Douglas, Lauren Bacall, Doris Day

Sinopse:
O jovem Rick Martin (Kirk Douglas) descobre que tem um dom para a música e se apaixona pelo trompete. O lendário trompetista Art Hazzard coloca Rick sob sua proteção e lhe ensina tudo o que sabe sobre como tocar. Rick acaba se tornando um trompetista famoso, mas sua personalidade volátil e seu desejo de tocar jazz em vez das músicas mais convencionais das bandas para as quais trabalha o colocam em uma situação complicada.

Comentários:
O jazz quando surgiu tinha o mesmo aspecto de som revolucionário que o rock iria ter alguns anos depois. Era considerado uma sonoridade da parcela negra e marginal da sociedade, então havia todo aquele preconceito e perseguição que bem conhecemos. Esse filme aqui tenta trazer um retrato desse tempo, focando no personagem de Kirk Douglas que não sabia tocar nenhum instrumento, mas como bom ator que era, passava de forma convincente nas telas de cinema como um músico talentoso. E ele precisa também se decidir entre duas mulheres fortes em sua vida, sendo uma delas a Doris Day quer era naquela época um símbolo de boa moça da sociedade. Enfim, um bom filme cujo roteiro até hoje se mostra bem interessante por causa do contexto cultural em que a história do filme se desenvolve. 

Pablo Aluísio.

Kirk Douglas - Filmografia Selecionada

 
Kirk Douglas - Filmografia Selecionada

Décadas de 1940 e 1950: 
O Tempo Não Apaga
O Invencível
Êxito Fugaz
Algemas de Cristal
A Montanha dos 7 Abutres
Chaga de Fogo
Floresta Maldita
O Rio da Aventura
Assim Estava Escrito
A História de Três Amores
O Malabarista
Mais Forte que a Morte
20.000 Léguas Submarinas
Ulysses
Caminhos sem Volta
Homem sem Rumo
A Um Passo da Morte
Sede de Viver
Lábios Selados
Sem Lei e Sem Alma
Glória Feita de Sangue
Vikings, os Conquistadores
Duelo de Titãs
O Discípulo do Diabo
Anáguas a Bordo

Pesquisa: Pablo Aluísio.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O Moço de Filadélfia

Baseado no romance de Richard Powell, o filme "The Young Philadelphians" conta a história de Anthony Judson Lawrence (Paul Newman), um jovem estudante de direito que sonha em se tornar um dia um grande advogado. Seu pai falecido pertencia a uma das famílias mais ricas da Filadélfia, mas sua mãe o criou como um rapaz humilde, trabalhador, que precisa ganhar a vida também em empregos mais modestos, como na construção civil. Ao se apaixonar por Joan Dickinson (Barbara Rush), filha de um bem sucedido advogado da cidade, Tony começa a construir uma nova vida até que o destino novamente muda praticamente tudo da noite para o dia. Um bom romance dramático que nem é tão lembrado nos dias atuais. Uma pena já que é de fato um filme bem acima da média. Embora haja muitos personagens interessantes desfilando na tela o foco se concentra mesmo na história do jovem Tony Lawrence (Newman). Ele foi fruto de um casamento problemático. Sua mãe era uma jovem comum, de classe mais humilde, que acabou se apaixonando por seu pai, o único herdeiro da grande fortuna de sua família, uma das mais ricas da Filadélfia. Quando ele se casa sofre um verdadeiro colapso emocional, o que o leva a abreviar sua vida de forma trágica (o roteiro não deixa essa aspecto completamente claro, mas fica subentendido que seu pai seria na realidade um homossexual enrustido que foi forçado a se casar para manter as aparências perante a sociedade). Após a morte prematura do pai o garoto Tony passa a ser criado apenas por sua mãe que arranja inúmeros empregos para lhe sustentar.

Os anos passam, Tony se torna um rapaz bonito e inteligente e consegue entrar na faculdade de direito, um velho sonho. Uma vez lá ele finalmente começa a ver as portas se abrindo para seu futuro. Quando conhece a bela Joan (Bush) tudo se completa. Ele está começando sua vida profissional, está apaixonado e seguro que terá um lindo futuro pela frente. O problema é que Joan acaba sucumbindo às pressões de seu pai, um advogado rico e bem sucedido, e resolve largar o honesto, porém pobretão Tony, para se casar com um outro sujeito, cheio de posses e também proveniente de uma rica família como a dela. Ela não o ama, mas mesmo assim sobe ao altar para agradar seus familiares. Embora fique arrasado com esse casamento, Tony decide seguir em frente, subindo cada vez mais na profissão de advogado. Sua prova de fogo na profissão finalmente vem quando seu grande amigo Chester A. Gwynn (Robert Vaughn) é acusado de ter cometido um homicídio. O crime parece envolver figurões da cidade e por essa razão Tony começa a sofrer todos os tipos de pressão. Mesmo assim, dono de uma integridade fora do comum, ele resolve seguir em frente para provar a inocência do amigo, tentando o livrar de uma condenação certa de pena de morte.

Embora possa parecer que seja um drama de tribunal apenas, "The Young Philadelphians" é bem mais do que isso pois procura desenvolver muito bem os sonhos, anseios e lutas de seu protagonista. Assim o destaque não vai apenas para o lado jurídico de sua trama, mas também para o aspecto emocional de seu conturbado relacionamento com a mulher que ama. Tudo embalado por ótimos atuações, em especial Robert Vaughn que interpreta um rapaz bem nascido que acaba vendo sua vida ser destruída após perder um braço na guerra da Coreia e ser acusado de ser um assassino frio e calculista. Sua atuação é realmente digna de todos os aplausos pois ele se entregou completamente ao seu personagem angustiado e sem rumo na vida. Um trabalho que só vem para coroar ainda mais esse belo filme assinado pelo diretor Vincent Sherman. Uma produção particularmente indicada para jovens aspirantes à bela profissão de advogado e também para todas as  pessoas românticas que acreditam que o verdadeiro amor consegue sobreviver a tudo. Vale realmente a pena conhecer mais esse momento da rica carreira do mito imortal Paul Newman.

O Moço de Filadélfia (The Young Philadelphians, Estados Unidos, 1959) Estúdio: Warner Bros / Direção: Vincent Sherman / Roteiro: James Gunn / Elenco: Paul Newman, Robert Vaughn, Barbara Rush, Alexis Smith / Sinopse: Jovem americano passa por um momento crucial em sua vida, tendo que enfrentar uma série de dificuldades pessoais. Filme indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Robert Vaughn). Também indicado ao prêmio máximo da Academia nas categorias de Melhor Fotografia em preto e branco e Melhor Figurino.

Pablo Aluísio.

Gata em Teto de Zinco Quente

Título no Brasil: Gata em Teto de Zinco Quente
Título Original: Cat on a Hot Tin Roof
Ano de Produção: 1958
País: Estados Unidos
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)
Direção: Richard Brooks
Roteiro: James Poe, Richard Brooks
Elenco: Elizabeth Taylor, Paul Newman, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson, Madeleine Sherwood
  
Sinopse:
Com roteiro baseado na peça "Cat on a Hot Tin Roof" de Tennessee Williams, o filme narra o complicado relacionamento entre a jovem Maggie (Elizabeth Taylor) e seu marido Brick Pollitt (Paul Newman). O casamento de ambos está em frangalhos, principalmente por causa do distanciamento que cresce a cada dia entre eles. Para piorar Brick se sente oprimido por viver em uma velha e tradicional casa do sul dos Estados Unidos dominada por um rico proprietário à moda antiga. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Paul Newman), Melhor Atriz (Elizabeth Taylor), Melhor Direção (Richard Brooks), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia (William H. Daniels). Também indicado ao Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme - Drama e Melhor Direção.

Comentários:
O filme foi roteirizado pelo diretor Richard Brooks. Se formos analisar bem sua carreira veremos que ele sempre foi mais um roteirista do que propriamente um diretor. Pois bem, embora Tennessee Williams tenha reclamado de algumas mudanças em seu texto original, temos que convir que o roteiro em si é muito bem escrito e trabalhado, deixando o filme com ótimo ritmo, fugindo da armadilha de o deixar teatral demais.. Penso que os textos de autoria do grande Tennessee Williams eram perigosos ao serem adaptados ao cinema, pois poderiam deixar qualquer filme pesado ou com aspecto de teatro filmado, o que não seria adequado pois artes diferenciadas exigem também adaptações diferentes. Nem sempre o que é adequado ao teatro consegue ser satisfatório na tela. Em "Gata em Teto de Zinco Quente" isso definitivamente não acontece e o espectador ao final da exibição terá a certeza de que assistiu a um grande filme, cinema puro. A produção é elegante, acima de tudo. O enredo se passa todo dentro de um grande casarão que é sede de uma fazendo de algodão no sul dos EUA. Embora isso possa parecer tedioso, não é. Hoje a MGM está à beira da falência, mas naquela época não economizava no bom gosto, como bem podemos comprovar aqui. A fazenda tipicamente sulista, o bonito figurino (especialmente de Liz Taylor) e a fotografia inspirada confirmam a elegância da película.
 
A grande força do filme porém vem de seu elenco maravilhoso. Elizabeth Taylor está linda e talentosa, dominando a cena. Ela  esbanja naturalidade e carisma em cada momento que surge na tela. Paul Newman, que passa o tempo todo de muletas e engessado, também demonstra muito talento no papel de Brick Pollitt, talvez o único personagem com algum valor moral dentro daquela casa. O curioso é que mesmo atores com escolas diferentes (com Newman vindo do teatro e Liz sendo basicamente uma atriz de cinema) conseguem se entender extremamente bem em cena. Sua química salta aos olhos, mesmo Paul Newman interpretando um marido que diante de tantos problemas negligencia sua bela e jovem esposa. Do elenco de apoio tenho que destacar primeiramente Burl Ives (Big Daddy, ótimo em sua caracterização de um homem que não conseguiu passar afeto aos seus familiares durante toda a sua vida) e Madeleine Sherwood (que faz a insuportável Mae Pollitt). Dentre as várias excelentes cenas destacaria aquela que se passa entre Newman e Ives no porão quando em tom de nostalgia Big Daddy se recorda de seu falecido pai, um mero vagabundo. Ali ele se mostra totalmente, sem máscaras, o que de certa maneira também serve para revelar a verdadeira face de sua família. Ótimo momento no quesito atuação. Enfim temos aqui um dos maiores clássicos da era de ouro de Hollywood, com dois de seus grandes astros em plena forma pessoal e dramática. Um filme mais do que clássico, absoluto.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Gata em Teto de Zinco Quente

Gata em Teto de Zinco Quente
Cat on a Hot Tin Roof, conhecido no Brasil como Gata em Teto de Zinco Quente, foi lançado nos Estados Unidos em 29 de agosto de 1958, sob a direção de Richard Brooks, que também escreveu o roteiro ao lado de James Poe, adaptando a peça homônima de Tennessee Williams, vencedora do Pulitzer em 1955. A produção da Metro-Goldwyn-Mayer reuniu um dos elencos mais prestigiosos de Hollywood naquele momento, formado por Paul Newman, Elizabeth Taylor, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson e Madeleine Sherwood. Newman interpretou Brick Pollitt, um ex-astro do futebol americano que se tornou alcoólatra e emocionalmente distante depois da morte de seu melhor amigo, enquanto Taylor interpretou Maggie, sua esposa, uma mulher determinada a recuperar o marido e garantir seu lugar na família. A trama se passa na propriedade rural de Big Daddy Pollitt, poderoso proprietário de terras do Mississippi, que reúne a família para comemorar seu aniversário. Entretanto, por trás da festa existe uma enorme tensão: Big Daddy está gravemente doente, embora inicialmente não saiba toda a extensão de sua condição, e seus filhos disputam silenciosamente a futura herança. Brick permanece indiferente a tudo, refugiando-se na bebida e recusando-se a manter relações conjugais com Maggie. Ao longo de uma única noite e de um intenso confronto familiar, antigos ressentimentos, mentiras, desejos, ciúmes e segredos começam a vir à tona. O resultado foi um dos grandes dramas familiares de Hollywood dos anos 1950.

A reação da crítica americana no lançamento foi fortemente positiva, especialmente em relação às atuações. Bosley Crowther, do The New York Times, escreveu que o elenco praticamente se "destrói" de tanto atuar e gritar, classificando o resultado como um espetáculo "ferocious and fascinating". Crowther também elogiou particularmente Paul Newman, descrevendo-o como um homem jovem, atormentado e posto à prova, enquanto considerou Elizabeth Taylor "terrific" no papel de Maggie. A Variety também foi bastante favorável, chamando o longa de "a powerful, well-seasoned film" e destacando Newman como um dos melhores atores do cinema. O Los Angeles Times, através de Philip K. Scheuer, considerou que a adaptação preservava a força do drama teatral e afirmou que Brooks havia extraído interpretações "stunningly real and varied" de seu elenco. A grande ressalva americana estava relacionada à adaptação do texto de Tennessee Williams. O Código Hays impediu que o filme tratasse abertamente da homossexualidade de Brick e de sua relação emocional com Skipper, elemento fundamental da peça original. Mesmo assim, os críticos reconheceram que a tensão permanecia perceptível por baixo dos diálogos. O filme foi, portanto, simultaneamente considerado uma excelente realização cinematográfica e uma adaptação inevitavelmente censurada de uma obra mais ousada.

Na Europa, especialmente no Reino Unido, a discussão sobre a censura tornou-se ainda mais importante. O The Guardian, em sua análise histórica, observou que a versão cinematográfica havia se tornado muito mais "polite" que a peça, perdendo parte de sua franqueza sobre a homossexualidade. O crítico britânico destacou que o filme transformou aquilo que era uma questão central da peça em uma tensão apenas sugerida. Décadas depois, Peter Bradshaw, também no Guardian, voltou ao filme e afirmou que não era possível assisti-lo sem perceber como a questão da homossexualidade havia sido censurada. Ainda assim, Bradshaw considerou extraordinária a atuação de Elizabeth Taylor, cuja Maggie foi descrita como uma personagem de intensidade "mesmerically feline". Na França, La Chatte sur un toit brûlant também se tornou um filme muito conhecido, embora a avaliação posterior tenha enfatizado justamente aquilo que a censura havia retirado da história. A Cinémathèque Française registra a produção como uma importante adaptação de Tennessee Williams e destaca o conflito familiar, a doença do patriarca e a crise conjugal entre Brick e Maggie. O filme recebeu seis indicações ao Oscar de 1959, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor para Richard Brooks, Melhor Ator para Paul Newman, Melhor Atriz para Elizabeth Taylor, Fotografia em Cores e Roteiro Adaptado. Não venceu nenhuma categoria, mas o número de indicações demonstrou a enorme consideração da Academia pela produção.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 2,3 milhões, Cat on a Hot Tin Roof transformou-se em um extraordinário sucesso comercial. A produção arrecadou cerca de US$ 11,2 milhões, tornando-se o filme de maior bilheteria da MGM em 1958 e o terceiro filme de maior arrecadação daquele ano nos Estados Unidos. O resultado foi particularmente impressionante porque se tratava de um drama adulto, essencialmente concentrado em poucos personagens e em conflitos familiares, sem grandes cenas de ação ou espetáculos típicos das superproduções da época. O principal fator de atração foi a combinação de Paul Newman e Elizabeth Taylor, dois dos maiores símbolos de Hollywood naquele momento. Taylor havia acabado de consolidar sua posição como uma das grandes estrelas do cinema, enquanto Newman estava rapidamente se tornando um dos principais atores de sua geração. O público também foi atraído pelo caráter provocativo da história, mesmo que a censura tivesse suavizado seu conteúdo. A imagem de Taylor como Maggie, frequentemente vestida com roupas extremamente elegantes e sensuais, tornou-se um dos elementos mais memoráveis da publicidade do filme. Newman, por sua vez, apresentou um personagem muito diferente dos heróis convencionais, marcado pelo alcoolismo, pela culpa e pela incapacidade de enfrentar seus sentimentos. A combinação entre sexualidade, riqueza, doença, herança e conflitos familiares fez com que o filme ultrapassasse o público habitual dos dramas teatrais. O resultado comercial comprovou que uma produção baseada em Tennessee Williams poderia ser simultaneamente sofisticada e extremamente popular.

Atualmente, Cat on a Hot Tin Roof é considerado um dos grandes clássicos do cinema americano dos anos 1950 e uma das obras mais importantes das carreiras de Paul Newman e Elizabeth Taylor. O filme mantém 97% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, com mais de três dezenas de avaliações, e 92% de aprovação do público, números que demonstram a extraordinária longevidade de sua reputação. No Metacritic, apresenta 84/100, classificado como "Universal Acclaim", enquanto a avaliação dos usuários permanece em território bastante favorável. A principal crítica contemporânea continua sendo a mesma levantada desde 1958: a adaptação perdeu parte da força da peça de Tennessee Williams ao eliminar praticamente todas as referências explícitas à homossexualidade de Brick. O próprio Williams ficou profundamente insatisfeito com a versão cinematográfica, e Paul Newman também manifestou decepção com a maneira como o material original foi alterado. Entretanto, essa limitação histórica não destruiu o poder dramático do filme. Pelo contrário, a tensão entre o que é dito e aquilo que permanece não dito tornou-se parte fundamental da experiência. A atuação de Newman é hoje reconhecida como uma das mais importantes de sua carreira, enquanto Taylor criou uma Maggie simultaneamente sensual, desesperada, inteligente e determinada. Burl Ives também permanece memorável como Big Daddy, uma figura brutal e vulnerável diante da própria mortalidade. A fotografia de William Daniels, a atmosfera sufocante da mansão e a direção de Brooks completam uma obra que continua fascinando novas gerações. Assim, mesmo sendo uma adaptação censurada, Cat on a Hot Tin Roof sobreviveu ao seu tempo e permanece como um dos grandes dramas familiares da história de Hollywood.

Gata em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof, Estados Unidos, 1958) Direção: Richard Brooks / Roteiro: Richard Brooks e James Poe, baseado na peça Cat on a Hot Tin Roof, de Tennessee Williams / Elenco: Paul Newman, Elizabeth Taylor, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson e Madeleine Sherwood / Sinopse: Durante o aniversário de um poderoso fazendeiro do Mississippi, uma família mergulhada em disputas pela herança é obrigada a confrontar doenças, ressentimentos, ambição e os segredos que destruíram o casamento de Brick e Maggie.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

O Moço de Filadélfia

O Moço de Filadélfia
The Young Philadelphians, lançado no Brasil como O Moço de Filadélfia, chegou aos cinemas em 1959, com direção de Vincent Sherman, cineasta veterano de Hollywood que retornava à Warner Bros. depois de vários anos afastado do estúdio. O filme é baseado no romance The Philadelphian, de Richard P. Powell, publicado em 1956, e teve roteiro de James Gunn, com participação não creditada de Dalton Trumbo em uma etapa da elaboração do texto. A produção foi estrelada por Paul Newman, acompanhado por Barbara Rush, Alexis Smith, Brian Keith, Diane Brewster e Robert Vaughn. Newman interpreta Anthony "Tony" Judson Lawrence, jovem advogado que nasce em circunstâncias socialmente complicadas e decide construir uma carreira capaz de levá-lo à elite da Filadélfia. O filme acompanha sua trajetória desde a juventude, mostrando a influência de sua mãe e as dificuldades provocadas pela diferença de classe entre sua família e os círculos sociais mais ricos da cidade. Tony escolhe o Direito como caminho para ascender socialmente e rapidamente demonstra grande inteligência e ambição. Ao entrar em um importante escritório de advocacia, começa a descobrir que o mundo profissional é tão competitivo e moralmente ambíguo quanto a sociedade que deseja integrar. Sua vida pessoal também é afetada por suas escolhas, especialmente por causa de seu relacionamento com Joan Dickinson, interpretada por Barbara Rush. Quando um velho amigo, Chet Gwynn, vivido por Robert Vaughn, é acusado de assassinato, Tony precisa decidir se continuará seguindo uma carreira baseada exclusivamente em ambição ou se colocará seus princípios em risco para defender alguém que considera injustamente acusado.

A recepção da crítica americana foi mista, com elogios às interpretações e críticas ao excesso de melodrama. A. H. Weiler, do The New York Times, foi particularmente severo e classificou o filme como "sudsy", observando que, embora a produção procurasse fazer um comentário social importante, acabava produzindo apenas uma análise superficial das diferenças de classe. Weiler também considerou que as dificuldades dos ricos e dos pobres poderiam ser igualmente pouco dramáticas quando apresentadas daquela maneira. O Los Angeles Times, através do crítico Philip K. Scheuer, também apresentou reservas: elogiou Robert Vaughn, mas considerou que as demais atuações não eram excepcionais e criticou o ritmo, afirmando que o filme "chuffs and chugs along the Main Line for 130 minutes". Scheuer também considerou a longa sequência do julgamento excessivamente extensa. O New York Daily News, em crítica de Dorothy Masters, foi ainda mais duro, afirmando que a essência do romance de Richard Powell parecia ter "vaporized" na adaptação cinematográfica e que a direção de Sherman provocava mais admiração do que empatia. Apesar dessas críticas, havia reconhecimento de que Paul Newman possuía uma presença cinematográfica muito forte e que o jovem Robert Vaughn oferecia uma atuação especialmente marcante. O filme também era visto como uma produção tecnicamente elegante, beneficiada pela fotografia em preto e branco de Harry Stradling Sr. e pelos figurinos de Howard Shoup. Assim, a crítica contemporânea não rejeitou completamente a obra, mas considerou que o potencial de seu material dramático era maior do que aquilo que Vincent Sherman conseguiu realizar.

Na Europa, a recepção também não transformou The Young Philadelphians em um grande clássico, embora o filme tenha despertado interesse especialmente pela atuação de Paul Newman e pela representação da elite jurídica americana. O longa recebeu no Reino Unido o título The City Jungle, enquanto na França foi conhecido como Ce monde à part, mostrando como seus distribuidores procuraram enfatizar o conflito entre diferentes mundos sociais. A avaliação posterior de críticos europeus tende a ser mais generosa com o filme do que algumas das críticas americanas de 1959. O alemão Lexikon des internationalen Films, por exemplo, resumiu a obra como uma adaptação literária "socialmente crítica", valorizando o elenco e a tentativa de abordar as diferenças de classe. Revisões posteriores também passaram a observar aspectos que dificilmente poderiam ser discutidos abertamente no período de lançamento, especialmente a representação de sexualidade, masculinidade e pressão social. O filme recebeu um reconhecimento importante na temporada de premiações de 1960: foi indicado a três Oscars, nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante, para Robert Vaughn, Melhor Fotografia em Preto e Branco, para Harry Stradling Sr., e Melhor Figurino em Preto e Branco, para Howard Shoup. Nenhum deles venceu, pois o Oscar de Ator Coadjuvante ficou com Hugh Griffith por Ben-Hur. Robert Vaughn também recebeu indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, prêmio que foi conquistado por Stephen Boyd por Ben-Hur. A indicação de Vaughn foi especialmente importante para sua carreira, pois o papel de Chet Gwynn chamou a atenção da indústria e ajudou a colocá-lo no caminho que posteriormente o levaria a The Magnificent Seven e à televisão em The Man from U.N.C.L.E..

Com duração de aproximadamente 2 horas e 16 minutos, The Young Philadelphians foi uma produção de prestígio da Warner Bros., embora os dados disponíveis atualmente não apresentem um orçamento oficial confiável. O desempenho comercial, entretanto, foi considerado bem-sucedido, contribuindo para consolidar Paul Newman como uma das grandes estrelas jovens de Hollywood. Estimativas históricas apontam para aproximadamente US$ 2,8 milhões em aluguel cinematográfico nos Estados Unidos e Canadá, um resultado significativo para um drama adulto em preto e branco daquele período. O filme chegou inclusive ao primeiro lugar em levantamentos semanais de bilheteria americanos durante sua carreira comercial, demonstrando que havia interesse considerável do público pela história e, principalmente, pelo crescente estrelato de Newman. O público também encontrou no filme elementos bastante atraentes: ascensão social, romance, conflitos familiares, corrupção profissional e um grande julgamento criminal. A transformação de Tony Lawrence de jovem ambicioso em advogado capaz de enfrentar as elites que anteriormente desejava impressionar oferecia uma estrutura narrativa clássica de ascensão e crise moral. Robert Vaughn, por sua vez, acrescentava uma dimensão trágica ao filme através de Chet Gwynn, veterano da Guerra da Coreia que retorna emocionalmente destruído e acaba envolvido em uma acusação de assassinato. A presença de Adam West, em uma pequena participação anterior à sua fama como Batman, também é uma curiosidade apreciada pelos admiradores do cinema clássico. Embora não tenha sido um fenômeno de bilheteria comparável aos grandes épicos de 1959, o resultado foi suficientemente forte para demonstrar que Newman já possuía enorme poder de atração junto ao público.

Atualmente, The Young Philadelphians ocupa uma posição interessante dentro da filmografia de Paul Newman. Não costuma ser colocado entre suas obras-primas, mas é considerado por muitos admiradores um drama jurídico e social subestimado, especialmente por registrar Newman em uma fase importante de sua carreira, pouco antes de filmes como Exodus, The Hustler e Hud. A avaliação contemporânea é mais favorável do que a recepção crítica original em alguns aspectos. No Rotten Tomatoes, o filme apresenta atualmente 71% de aprovação da crítica, embora baseado em apenas sete avaliações, e 80% de aprovação do público. No IMDb, mantém uma avaliação de aproximadamente 7,4/10, indicando que continua encontrando admiradores entre os espectadores modernos. Críticos posteriores costumam reconhecer que o melodrama envelheceu e que algumas situações parecem excessivamente artificiais, mas também destacam a força do elenco e, principalmente, a sequência final do julgamento. Robert Vaughn é frequentemente apontado como um dos grandes destaques da produção, e sua indicação ao Oscar permanece como a principal distinção individual do filme. O próprio tema da ascensão social de Tony Lawrence ganhou interesse retrospectivo porque apresenta uma sociedade em que riqueza, sobrenome e relações pessoais exercem enorme influência sobre as oportunidades profissionais. A questão da ética na advocacia também dá ao filme uma dimensão particularmente interessante para espectadores contemporâneos. Dessa maneira, embora The Young Philadelphians não tenha alcançado o status de clássico absoluto de Hollywood, continua sendo uma obra relevante para compreender a evolução de Paul Newman e a tradição dos dramas jurídicos americanos. Sua mistura de melodrama, crítica social e tribunal faz dele um filme que merece ser redescoberto, sobretudo por quem aprecia o cinema americano dos anos 1950 e os primeiros grandes trabalhos de Newman.

O Moço de Filadélfia (The Young Philadelphians, Estados Unidos, 1959) Direção: Vincent Sherman / Roteiro: James Gunn e Dalton Trumbo, baseado no livro The Philadelphian, de Richard P. Powell / Elenco: Paul Newman, Barbara Rush, Alexis Smith, Brian Keith, Diane Brewster e Robert Vaughn / Sinopse: Um jovem advogado determinado a conquistar seu lugar na elite da Filadélfia precisa escolher entre continuar sua ascensão profissional ou arriscar a carreira para defender um amigo acusado de assassinato.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

A Delícia de um Dilema

A Delícia de um Dilema
Rally 'Round the Flag, Boys!, conhecido no Brasil como A Delícia de um Dilema, foi lançado originalmente em 23 de dezembro de 1958, em Nova York, chegando ao circuito nacional americano em fevereiro de 1959. A direção ficou a cargo de Leo McCarey, veterano da comédia americana e responsável por clássicos como The Awful Truth e Duck Soup, que também produziu e escreveu o roteiro ao lado de Claude Binyon. O filme foi realizado pela 20th Century-Fox, em CinemaScope e Technicolor, e adaptou o romance homônimo de Max Shulman, publicado em 1957. O elenco era especialmente atraente para o público da época, reunindo Paul Newman, Joanne Woodward, Joan Collins, Jack Carson, Dwayne Hickman e Tuesday Weld. Newman e Woodward, que haviam se casado pouco antes da produção, interpretam o casal Harry e Grace Bannerman, dando ao filme uma dimensão curiosamente próxima da vida real dos atores. A história se passa em Putnam's Landing, uma pequena comunidade suburbana de Connecticut que tem sua rotina perturbada quando o Exército decide instalar nas proximidades uma base secreta de mísseis. Grace Bannerman, extremamente envolvida nas atividades cívicas da cidade, organiza uma campanha contra a instalação militar e acaba colocando o marido, especialista em relações públicas, no centro da crise. Harry é então encarregado de negociar com os militares e, ao mesmo tempo, precisa enfrentar a presença sedutora de Angela Hoffa, sua vizinha interpretada por Joan Collins. O resultado é uma comédia de costumes que mistura casamento, adultério, política local, Guerra Fria, patriotismo, suburbanização e uma série de situações absurdas.

A reação da crítica americana na época foi mista, e essa divisão se explica em grande parte pela própria natureza do filme. Bosley Crowther, do The New York Times, foi relativamente favorável ao aspecto cômico e resumiu sua avaliação afirmando que Rally 'Round the Flag, Boys! "is no epic. But it's good for laughs", ou seja, não era uma obra grandiosa, mas proporcionava boas risadas. A Variety também encontrou qualidades na produção e destacou que algumas das piadas eram elaboradas e cuidadosamente cronometradas, "as carefully timed as a dance sequence". O problema, segundo parte dos críticos, era que McCarey parecia dividido entre uma comédia romântica tradicional e uma sátira política sobre a paranoia militar da Guerra Fria. O filme também tinha uma quantidade considerável de diálogos e situações episódicas, o que fazia com que a narrativa parecesse menos ágil do que as melhores comédias screwball do diretor. O Turner Classic Movies observa justamente que muitas cenas dependem de diálogos longos e de personagens praticamente parados, algo que prejudicava o ritmo frenético normalmente associado à tradição da screwball comedy de McCarey. Ainda assim, o prestígio de Paul Newman estava em ascensão naquele momento, depois de The Long, Hot Summer e Cat on a Hot Tin Roof, ambos de 1958, e isso ajudou a despertar interesse pelo lançamento. A crítica americana, portanto, não tratou o filme como um desastre, mas tampouco o colocou entre os grandes trabalhos de McCarey. A impressão predominante foi a de uma comédia irregular, com bons momentos, excelente elenco e algumas situações genuinamente engraçadas, mas incapaz de alcançar a consistência dos melhores trabalhos do diretor.

Na Europa, a avaliação também foi longe de ser unânime, embora o filme tenha despertado posteriormente interesse entre historiadores e estudiosos da comédia americana. No Reino Unido, a produção não alcançou o mesmo prestígio crítico de outras obras americanas do período, sendo frequentemente lembrada mais como uma comédia tardia de McCarey do que como um clássico absoluto. A perspectiva posterior do cinema britânico foi particularmente interessante porque passou a enxergar no filme um retrato involuntário da sociedade americana do final dos anos 1950, marcada pela prosperidade suburbana, pelo medo nuclear e pela Guerra Fria. Na França, a redescoberta do longa foi igualmente ambígua. O Critikat, ao analisar o filme décadas depois, descreveu a produção como uma comédia "aussi fantaisiste que débridée" sobre os excessos do conservadorismo americano dos anos 1950, reconhecendo sua natureza peculiar e seu caráter satírico. Essa avaliação posterior é importante porque ajuda a explicar por que o filme acabou sendo mais interessante para historiadores do cinema do que sua recepção inicial poderia sugerir. O longa mistura a tradição da comédia screwball com temas que estavam profundamente ligados à realidade americana daquele momento, como bases militares, corrida armamentista, medo de ataques nucleares e a transformação das pequenas cidades em subúrbios. Ao mesmo tempo, a crítica europeia também percebeu que a sátira nem sempre era suficientemente afiada e que McCarey frequentemente preferia o humor físico e os conflitos conjugais à análise política. O filme não recebeu indicações ao Oscar nem conquistou grandes prêmios internacionais, embora Leo McCarey tenha posteriormente recebido uma indicação do Directors Guild of America pelo trabalho de direção. Sua trajetória de premiações, portanto, foi modesta, e o reconhecimento mais duradouro acabou vindo da importância histórica do elenco e da carreira de seu diretor.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 1,9 milhão, Rally 'Round the Flag, Boys! era uma produção relativamente importante para uma comédia de 1958, especialmente por utilizar o formato CinemaScope e reunir estrelas em ascensão. O filme obteve cerca de US$ 3,4 milhões em aluguel cinematográfico nos Estados Unidos e Canadá, segundo os dados históricos associados à produção, o que indica que conseguiu recuperar seu investimento e alcançar um resultado comercial razoável. Não existem números internacionais confiáveis e amplamente documentados que permitam estabelecer uma renda mundial comparável aos padrões atuais, algo comum em produções americanas dos anos 1950. O desempenho comercial foi impulsionado principalmente pela popularidade de Paul Newman e pelo interesse despertado pela parceria cinematográfica entre Newman e Joanne Woodward. O público encontrou no filme uma combinação de comédia conjugal, situações de adultério, humor militar e uma sátira relativamente leve da vida suburbana. A presença de Joan Collins como a sensual Angela Hoffa também funcionou como importante elemento de atração comercial. Entretanto, a recepção popular não foi suficientemente entusiasmada para transformar o longa em um dos grandes sucessos da década. As avaliações atuais do público são relativamente modestas: o Rotten Tomatoes registra 45% de aprovação dos espectadores, enquanto o IMDb apresenta aproximadamente 5,9/10. Isso mostra que o filme conquistou uma parcela do público, mas não desenvolveu uma reputação popular comparável à de outras comédias de McCarey. Seu maior valor comercial acabou sendo também histórico: capturou Paul Newman em um momento muito específico de sua ascensão ao estrelato e reuniu o futuro casal Newman-Woodward em uma comédia pouco lembrada de suas carreiras.

Atualmente, Rally 'Round the Flag, Boys! ocupa uma posição bastante curiosa dentro da filmografia de Leo McCarey. Não é geralmente considerado um de seus melhores filmes e está muito distante do prestígio de The Awful Truth, Going My Way ou Make Way for Tomorrow. O Rotten Tomatoes apresenta apenas 30% de aprovação da crítica, baseado em dez avaliações, com média de 5/10, confirmando que a obra permanece controversa entre os críticos contemporâneos. Entretanto, algumas revisões modernas passaram a observar características que talvez não fossem tão evidentes em 1958. O estudo publicado pelo MUBI Notebook considera o filme uma produção esquecida que mistura diversos elementos da sociedade americana do final dos anos 1950 e identifica momentos de verdadeiro encanto dentro de uma narrativa irregular. Historiadores também destacam a maneira como McCarey recupera elementos da comédia screwball, colocando um casal em crise diante da presença de uma terceira pessoa sedutora, mas acrescentando ao modelo tradicional a tensão política da Guerra Fria. Nesse sentido, o filme pode ser visto hoje como um documento cultural particularmente interessante sobre a América de Eisenhower, mais do que simplesmente como uma comédia bem-sucedida. A preocupação com bases de mísseis, a presença do Exército na comunidade, a obsessão pela respeitabilidade social e a sexualidade tratada de maneira relativamente ousada revelam muito sobre os valores e medos daquela sociedade. Também é importante observar que Paul Newman e Joanne Woodward haviam se casado pouco antes da produção, acrescentando um elemento curioso à dinâmica romântica do filme. Dessa forma, embora não seja hoje considerado um clássico essencial, Rally 'Round the Flag, Boys! merece ser redescoberto por admiradores de Newman, Woodward, Joan Collins e da comédia americana clássica, além de oferecer um retrato bastante singular da sociedade americana durante a Guerra Fria.

A Delícia de um Dilema (Rally 'Round the Flag, Boys!, Estados Unidos, 1958) Direção: Leo McCarey / Roteiro: Claude Binyon e Leo McCarey, baseado no livro Rally 'Round the Flag, Boys!, de Max Shulman / Elenco: Paul Newman, Joanne Woodward, Joan Collins, Jack Carson, Dwayne Hickman e Tuesday Weld / Sinopse: Quando o Exército escolhe sua pequena cidade para instalar uma base secreta de mísseis, uma dona de casa decide liderar a resistência local, enquanto seu marido tenta negociar com os militares e se vê envolvido em uma perigosa confusão conjugal provocada por uma vizinha sedutora.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

domingo, 30 de agosto de 2026

As Cartas de Grace Kelly - Parte 6

Em 1951 Grace Kelly aceitou o convite para ir até Hollywood filmar um novo faroeste que iria se chamar "Matar ou Morrer". Ela teve um certo desejo de não aceitar o convite porque afinal de contas estava se dando muito bem em Nova Iorque, trabalhando como modelo e como atriz em peças na Broadway e em teleteatros filmados que eram exibidos nos canais de TV. Tudo corria maravilhosamente perfeito, mas seu agente lhe disse que um convite como aquele não poderia ser recusado. Outro ponto que a fez recuar um pouco foi o fato de que o filme seria um faroeste ao velho estilo, estrelado pelo astro do gênero Gary Cooper. Ela não tinha pretensões de fazer filmes desse estilo. Porém, mesmo com certa hesitação, ela terminou assinando o contrato para fazer o filme.

Assim, até meio a contragosto, ela finalmente arranjou três semanas livres e voou até Los Angeles. Acabou encontrando um set de filmagens com um diretor muito estressado pois o cineasta Fred Zinnemann era detalhista ao extremo, No elenco ela encontro um amigo, o ator Gary Cooper, que aos 51 anos era um veterano das telas, com décadas de carreira em Hollywood. Enquanto isso Grace era apenas uma novata esforçada, aos 21 anos de idade. Apesar da diferença de gerações (afinal ele tinha idade para ser o pai dela), as coisas fluíram muito bem entre eles. O que começou com uma amizade sincera entre dois colegas de trabalho acabou se tornando algo mais.

Grace Kelly levou o romance das telas para a vida real. Ela teve um romance com o cinquentão Cooper, que dono de uma personalidade bem tímida e retraída, nunca ficou muito confortável com aquela situação. Na verdade o ator ficou em dúvida se aquela jovem queria tirar algum proveito dele ou se realmente tinha um verdadeiro sentimento no relacionamento que começou bem no meio das filmagens. De uma forma ou outra o próprio Cooper resolveu acabar com o breve romance. Ele disse a Grace Kelly, já perto do fim das filmagens, que já tinha vivido muito para saber que algo como aquilo não tinha muito futuro. Assim de forma educada e gentil resolveu encerrar o romance. Ele gostava de cultivar a imagem de homem honrado dentro da comunidade em Hollywood. Um caso com uma atriz tão jovem não iria pegar bem.

Nos anos que viriam Grace Kelly iria se relacionar com muitos atores com quem trabalharia. Ela parecia ter um tipo de fetiche em namorar os grandes astros de Hollywood, por isso acabou ficando conhecida por ser muito namoradeira na época. Só um grande astro resistiu ao seu charme. Apesar de todos os esforços Grace Kelly não conseguiu conquistar o homem que ela considerava perfeito: Rock Hudson. Grace ficou apaixonadíssima por ele, pois era alto, bonito e tinha um ótimo carisma, se revelando simpático e muito acessível. O que Grace não sabia (poucos sabiam disso em Hollywood) era que Hudson era gay e escondia isso do estúdio e do público em geral. Afinal segredos eram para ser bem guardados.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Disque M Para Matar

Disque M Para Matar
Esse filme é outro clássico do mestre do suspense Alfred Hitchcock. Ele criou um excelente clima com um enredo relativamente até bem simples. Na trama temos a figura de Margot Mary Wendice (Grace Kelly). Ela é uma jovem esposa que começa a se decepcionar com seu casamento. A rotina e o tédio acabam destruindo suas esperanças de viver um matrimônio feliz. Após longos anos de união, ela começa a ter um caso amoroso extraconjugal com um grande amor de seu passado, o escritor de romances policiais Mark Halliday (Robert Cummings). Ambos estão muito apaixonados e começam a trocar cartas de amor. Eventualmente uma delas vai parar nas mãos do marido traído, Tony (Ray Milland).

Fingindo não saber de absolutamente nada, ele então planeja uma forma de matar a esposa infiel para de quebra se tornar o único herdeiro de sua fortuna. Para colocar em prática sua artimanha criminosa, resolve chantagear um antigo colega de universidade, Swan (Anthony Dawson), que agora vive de explorar mulheres idosas, ricas e solitárias. Enquanto se garante com um álibi, em um evento social, seu comparsa deve entrar em sua casa para asfixiar sua esposa, tentando passar a ideia de que tudo foi apenas um roubo mal sucedido. No começo tudo ocorre bem até que algo acaba não saindo como havia sido inicialmente planejado.

Que Alfred Hitchcock foi um dos grandes gênios do cinema ninguém mais duvida. O diretor tinha um talento incomum para contar enredos sórdidos de uma maneira toda especial. Na superfície, seus personagens viviam em uma espécie de conto de fadas moderno, onde todos eram ricos, felizes e bonitos. Por debaixo dessa aparente normalidade se escondia os mais terríveis sentimentos mesquinhos. Veja o caso do casal formado por Mary (Kelly) e Tony (Milland). Ela é uma bem sucedida mulher, loira e linda, que não desperta suspeitas. Todos pensam ser a esposa ideal. Ele é um ex-tenista, agora aposentado, que se diz muito feliz em se dedicar completamente à esposa e seus caprichos. Um casal realmente perfeito a admirável. Isso é o que a sociedade pensa ser a verdade.

Por debaixo de tudo se esconde uma mulher infeliz com seu casamento de fachada, a ponto de nutrir um amor secreto e inconfessável. Na verdade ela não sente nenhum carinho ou afeição pelo marido e morre mesmo de amores por um antigo amor, um escritor de tramas policiais. Como não pode assumir esse seu sentimento proibido publicamente, começa a ter encontros escondidos com o amante. O marido, que sempre aparentou ser um homem muito educado e fino, um verdadeiro gentleman, acaba descobrindo a traição de sua jovem esposa, mas ao invés de se divorciar em um escandaloso rompimento perante a sociedade ele resolve ir por um caminho mais sutil e... fatal. Ele entra em contato com um antigo conhecido da universidade, um sujeito que não conseguiu se dar bem na vida, vivendo de pequenos e grandes golpes, explorando mulheres velhas e ricas. Um verdadeiro escroque.

A intenção é clara, o sujeito deve matar sua esposa infiel, em sua própria casa, enquanto ele, o marido, surge numa festa, na frente de todos, o que o livraria de uma eventual acusação de tê-la matado. Para atrair ela até um quarto escuro de sua casa, onde o assassino cometerá o crime, Tony usa o telefone. Assim que Margot o atender deverá ser assassinada. Aqui Hitchcock expõe todos os detalhes do plano e depois dos acontecimentos que vão surgindo em decorrência de vários imprevistos. O personagem Tony (Ray Milland) é extremamente inteligente e consegue armar contra todos, inclusive enganando os experientes inspetores da polícia. Tudo acaba caminhando muito bem, mesmo que por linhas tortas, até um pequeno, quase invisível detalhe, colocar tudo a perder. Esse roteiro pode ser descrito como um intrigado caso criminal, baseado muitas vezes em um tipo de suspense mais intelectual, apelando quase sempre para a perspicácia do espectador, que deve ficar bem atento para não perder nenhum detalhe. Nesse aspecto é certamente um dos grandes filmes da carreira do mestre. É um clássico absoluto do suspense na história da sétima arte.

Disque M Para Matar (Dial M for Murder, Estados Unidos, 1954) Estúdio: Warner Bros / Direção: Alfred Hitchcock /Roteiro: Frederick Knott / Elenco: Grace Kelly, Ray Milland, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson / Sinopse: Marido planeja matar a esposa infiel contando com a colaboração de um amigo. Tudo é minuciosamente planejado. Porém dar certo como previsto já seria uma outra história completamente diferente. Filme indicado ao BAFTA Awards na categoria de Melhor Atriz (Grace Kelly).

Pablo Aluísio. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O Príncipe Encantado

Título no Brasil: O Príncipe Encantado
Título Original: A Date with Judy
Ano de Lançamento: 1948
País: Estados Unidos
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer
Direção: Richard Thorpe
Roteiro: Dorothy Kingsley, baseado na série radiofônica de Alec Wyman
Elenco: Jane Powell, Wallace Beery, Elizabeth Taylor, Carmen Miranda, Robert Stack, Scotty Beckett, Selena Royle e Leon Ames.
Duração: 113 minutos.

Sinopse:
A Date with Judy é uma comédia musical juvenil ambientada em uma típica família americana de classe média. A protagonista, Judy Foster, interpretada por Jane Powell, é uma adolescente romântica que vive preocupada com seu relacionamento com Oogie Pringle, vivido por Scotty Beckett. Ao mesmo tempo, Judy acredita que seu namorado pode estar interessado em outras garotas e começa a alimentar uma série de ciúmes e mal-entendidos. Seu pai, Melvyn Foster, interpretado por Wallace Beery, é um homem de personalidade forte que mantém uma relação bastante complicada com sua esposa, Dora, e com os filhos. Elizabeth Taylor interpreta Carol Pringle, uma jovem elegante e sofisticada que se torna uma espécie de rival de Judy e acrescenta uma nova dimensão aos conflitos amorosos da história. O filme também conta com uma participação muito especial de Carmen Miranda, cuja presença proporciona alguns dos momentos musicais mais exuberantes da produção. Misturando romance adolescente, conflitos familiares, números musicais e humor, o longa representa perfeitamente o estilo das comédias juvenis produzidas pela MGM no período.

Comentários:
Embora muitas referências atuais indiquem 1947 por causa do período de produção, A Date with Judy foi efetivamente lançado nos Estados Unidos em julho de 1948. A produção nasceu da popularidade da série radiofônica homônima e recebeu da MGM o tratamento luxuoso característico de suas grandes comédias musicais. A crítica americana teve uma reação bastante favorável ao entretenimento oferecido pelo filme. A Variety destacou Jane Powell como uma das grandes forças da produção e elogiou a combinação entre humor familiar, romance adolescente e música. O The New York Times, embora considerasse a história leve e pouco sofisticada, reconheceu o excelente trabalho do elenco e a eficiência da MGM em transformar uma série radiofônica em um espetáculo cinematográfico colorido. Elizabeth Taylor, com apenas 16 anos, recebeu atenção especial por sua elegância e presença de tela, mesmo tendo um papel secundário. A jovem atriz já começava a demonstrar a qualidade fotogênica que futuramente faria dela uma das maiores estrelas de Hollywood. Robert Stack também chamava atenção como o jovem amor de Carol, enquanto Wallace Beery era responsável por boa parte do humor adulto. Entretanto, o grande destaque popular foi Carmen Miranda, que aparece em números musicais exuberantes e praticamente rouba algumas das cenas em que participa.

Com o passar dos anos, A Date with Judy passou a ser lembrado principalmente como um produto típico da Hollywood musical do final dos anos 1940. Críticos modernos observam que sua história é simples e bastante convencional, mas reconhecem o valor histórico da produção como retrato dos filmes juvenis e musicais da MGM. A Turner Classic Movies destaca particularmente a presença de Elizabeth Taylor e Carmen Miranda, duas artistas que, embora em momentos completamente diferentes de suas carreiras, conferem ao filme uma importância especial para os admiradores do cinema clássico. Taylor ainda estava construindo sua imagem como atriz adolescente, poucos anos antes de alcançar o estrelato absoluto com Um Lugar ao Sol e Assim Caminha a Humanidade. Carmen Miranda, por sua vez, já era uma estrela internacional e uma das artistas latino-americanas mais conhecidas de Hollywood. O filme também é lembrado pela fotografia em Technicolor, pelos figurinos e pelos números musicais elaborados, características que ajudaram a MGM a manter sua posição dominante no gênero. Hoje, A Date with Judy é considerado um entretenimento leve e nostálgico, particularmente interessante para os fãs de Elizabeth Taylor em sua juventude e para aqueles que desejam conhecer a tradição das comédias musicais adolescentes produzidas pelos grandes estúdios americanos durante a Era de Ouro de Hollywood.

Erick Steve. 

Nossa Vida com Papai

Título no Brasil: Nossa Vida com Papai
Título Original: Life with Father
Ano de Lançamento: 1947
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros.
Direção: Michael Curtiz
Roteiro: Donald Ogden Stewart, baseado nas memórias de Clarence Day e na peça teatral de Howard Lindsay e Russel Crouse
Elenco: William Powell, Irene Dunne, Elizabeth Taylor, Edmund Gwenn, ZaSu Pitts, Jimmy Lydon, Martin Milner, Johnny Calkins e Derek Scott.
Duração: 118 minutos.

Sinopse:
Ambientado em Nova York no final do século XIX, Nossa Vida com Papai acompanha Clarence Day, um bem-sucedido corretor da Bolsa que acredita ser a autoridade máxima dentro de sua casa. Interpretado por William Powell, Clarence é um homem autoritário, temperamental e cheio de opiniões sobre praticamente tudo, especialmente sobre a maneira como sua família deve viver. Sua esposa, Vinnie, interpretada por Irene Dunne, entretanto, conhece perfeitamente o marido e consegue administrar seus acessos de irritação com inteligência e delicadeza. O casal vive com seus quatro filhos, e a rotina doméstica transforma-se em uma sucessão de situações cômicas envolvendo dinheiro, empregados, educação, religião e relacionamentos. Elizabeth Taylor interpreta Mary Skinner, uma jovem que se torna amiga da família e desperta o interesse romântico de um dos filhos de Clarence. Um dos conflitos centrais surge quando Clarence percebe que sua família pertence a uma tradição religiosa diferente da de Mary e decide que determinadas questões precisam ser resolvidas. A história transforma os pequenos acontecimentos da vida doméstica em uma divertida observação dos costumes da classe média alta nova-iorquina da época.

Comentários:
Nossa Vida com Papai foi um grande sucesso da Warner Bros. e recebeu uma recepção crítica predominantemente positiva em 1947. A produção adaptava uma peça da Broadway extremamente popular, por sua vez baseada nas memórias humorísticas de Clarence Day, e Michael Curtiz procurou preservar no cinema o espírito de comédia familiar da obra original. O The New York Times foi particularmente favorável, destacando que o filme conseguia transportar para o Technicolor o charme, o humor e o sentimentalismo delicado da peça. A Variety também elogiou William Powell e Irene Dunne, observando que os dois conseguiam preservar boa parte do encanto da produção teatral e que o humor derivado da personalidade autoritária de Clarence continuava funcionando muito bem. A TV Guide, em avaliação posterior, foi ainda mais entusiasmada com Powell, classificando sua interpretação do patriarca como "magnificent" e destacando também as contribuições de Elizabeth Taylor, Martin Milner, Jimmy Lydon e Edmund Gwenn. Elizabeth Taylor tinha apenas 15 anos e estava começando a se estabelecer como uma das grandes jovens promessas da MGM; seu papel é secundário, mas sua presença já demonstra o extraordinário magnetismo que posteriormente a transformaria em uma das maiores estrelas de Hollywood. A própria Turner Classic Movies destaca que Life with Father foi um dos trabalhos que Taylor realizou como atriz jovem antes de sua consolidação definitiva como estrela.

A recepção, contudo, não foi totalmente uniforme. A The New Yorker, em crítica atribuída a Pauline Kael em retrospectiva, mostrou-se muito mais fria e considerou a adaptação excessivamente cuidadosa e pouco cinematográfica, argumentando que Michael Curtiz parecia fora de seu elemento diante do material teatral. Essa divergência é interessante porque evidencia justamente uma característica do filme: seu maior mérito está nos atores, nos diálogos e na reprodução do ambiente doméstico, e não em uma linguagem cinematográfica particularmente ousada. William Powell domina a produção com uma atuação cômica extremamente precisa, enquanto Irene Dunne funciona como seu contraponto perfeito. O filme recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Ator para Powell, Fotografia em Cores, Direção de Arte em Cores e Trilha Sonora. A produção também foi importante para a Warner Bros. por demonstrar que uma comédia familiar de época poderia obter grande sucesso utilizando o então luxuoso Technicolor. Décadas depois, sua reputação permaneceu sólida: atualmente, Nossa Vida com Papai possui 92% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, com 13 avaliações. Para os admiradores de Elizabeth Taylor, o filme possui ainda um valor especial por registrar a atriz muito jovem, poucos anos depois de A Coragem de Lassie e National Velvet, em uma fase anterior à transformação na estrela internacional que se tornaria durante os anos 1950 e 1960.

Erick Steve.

As Delícias da Vida

Título no Brasil: As Delícias da Vida
Título Original: Cynthia
Ano de Lançamento: 1947
País: Estados Unidos
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer
Direção: Robert Z. Leonard
Roteiro: Harold Buchman e Charles Kaufman, baseado na peça The Rich, Full Life, de Viña Delmar
Elenco: Elizabeth Taylor, Mary Astor, George Murphy, S. Z. Sakall, Gene Lockhart, Spring Byington e James Lydon.
Duração: 98 minutos.

Sinopse:
Cynthia acompanha Cynthia Bishop, uma adolescente tímida e fisicamente frágil, interpretada por Elizabeth Taylor quando tinha apenas 14 anos durante as filmagens. Extremamente protegida pelos pais, Larry e Louise Bishop, Cynthia cresceu acreditando que sua saúde delicada a impedia de levar uma vida normal. Seus pais, principalmente o pai, desenvolvem uma preocupação exagerada com sua condição e procuram evitar qualquer situação que possa representar esforço físico ou emocional. A chegada da adolescência, entretanto, faz com que Cynthia comece a desejar independência, amizades e experiências próprias de sua idade. Na escola, ela descobre uma paixão pela música e recebe a oportunidade de participar de uma apresentação musical. Ao mesmo tempo, apaixona-se pelo colega Ricky Latham, que a incentiva a enfrentar suas inseguranças. Quando seus pais tentam impedir que participe da apresentação, Cynthia decide desafiar a proteção excessiva que sempre marcou sua vida. A experiência transforma-se, assim, em uma história de amadurecimento, na qual a jovem precisa conquistar não apenas a aprovação dos outros, mas principalmente a confiança em si mesma.

Comentários:
Quando Cynthia chegou aos cinemas em 1947, Elizabeth Taylor já era uma jovem atriz em ascensão dentro da Metro-Goldwyn-Mayer, e o filme ajudou a consolidar sua imagem como uma das grandes promessas juvenis de Hollywood. A crítica americana, entretanto, recebeu a produção de maneira bastante dividida. O The New York Times, através de Bosley Crowther, foi bastante severo e classificou o filme como um produto excessivamente artificial da MGM, embora reconhecesse a simpatia de Elizabeth Taylor. A revista TIME teve uma avaliação mais equilibrada: considerou que a história funcionava melhor quando retratava os pequenos conflitos da adolescência e as dificuldades familiares, fazendo uma comparação favorável com o escritor Booth Tarkington. Ao mesmo tempo, a publicação criticou algumas das situações cômicas consideradas exageradas e previsíveis. Já Howard Barnes, do New York Herald Tribune, foi muito mais entusiasmado com Elizabeth Taylor, escrevendo que a jovem atriz realizava um trabalho brilhante no papel-título e interpretava sua personagem com "grave encanto". Essa diferença de opiniões demonstra que, embora o filme não fosse considerado uma grande produção da MGM, havia um consenso de que Taylor possuía uma presença cinematográfica extraordinária para sua idade.

Com o passar das décadas, Cynthia passou por uma interessante reavaliação. O filme, que originalmente era visto sobretudo como uma produção juvenil e sentimental da MGM, passou a despertar maior interesse justamente por registrar Elizabeth Taylor em uma etapa muito importante de sua carreira. A Turner Classic Movies observa que a interpretação da atriz e a de Mary Astor receberam elogios dos críticos contemporâneos, enquanto retrospectivamente o crítico britânico Alexander Walker classificou Cynthia como um dos triunfos injustamente esquecidos de Taylor, destacando sua delicadeza, simpatia e afirmação de independência. A relação entre Cynthia e sua mãe, interpretada por Mary Astor, é particularmente importante para o filme, pois transforma a história em um drama sobre proteção parental e amadurecimento. O longa também possui valor histórico por registrar uma das primeiras grandes atuações de Elizabeth Taylor como protagonista adolescente. Comercialmente, a produção foi lucrativa para a MGM: os registros do estúdio apontam receitas de aproximadamente US$ 1,206 milhão nos Estados Unidos e Canadá e US$ 442 mil em outros mercados, resultando em lucro de cerca de US$ 280 mil. Hoje, Cynthia é considerado um filme menor, porém charmoso, da Hollywood clássica, e sobretudo um documento precioso da formação artística de Elizabeth Taylor antes de sua transformação em uma das maiores estrelas do cinema mundial.

Erick Steve. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Os Filmes de Vivien Leigh - Parte 1

Vivien Leigh nasceu em Darjeeling, na época uma província do império britânico na distante e exótica Índia. Seus pais estavam a trabalho por lá. Depois de algum tempo retornaram finalmente a Londres, onde Vivien desde cedo mostrou muita vocação para as artes, especialmente para a arte dramática. Assim ela estudou por vários anos para ser atriz, frequentando alguns dos melhores cursos de teatro de Londres.

Durante muitos anos o teatro foi o centro de sua carreira de atriz e só aos 22 anos ela fez seu primeiro filme chamado "The Village Squire", uma pequena produção inglesa dirigida pelo cineasta Reginald Denham. O roteiro do filme era baseado numa peça teatral escrita pelo dramaturgo Arthur Jarvis Black e contava a singela história de uma pequena vila no interior da Inglaterra que via sua rotina mudar completamente com a chegada de uma grande estrela de cinema.

Como era de se esperar os primeiros filmes de Vivien Leigh foram todos rodados na Inglaterra, sua terra natal. Hollywood ainda parecia uma realidade distante nesses seus primeiros trabalhos no cinema. Em 1935, ano em que estreou nas telas, ela atuou em quatro produções distintas, todas produções modestas de estúdios locais. "Look Up and Laugh", seu segundo filme, foi uma comédia. Era uma experiência bem nova para Leigh que sempre havia direcionado seus estudos para o drama, não para o humor. Esse filme aliás é um caso raro dentro da sua filmografia pois a atriz não tinha muita vocação para esse tipo de roteiro. Anos depois lembrando de sua participação nesse filme ela confessou: "Eu não nasci para as comédias, definitivamente não!"

Essa percepção iria ficar ainda mais forte em seu filme seguinte, intitulado "Things Are Looking Up". Leigh interpretava uma colegial nesse filme muito leve, simples, de conteúdo familiar. Serviu para ganhar alguma experiência, porém não foi algo muito importante. No quarto filme em que participou "Gentlemen's Agreement" de George Pearson, ela ouviu um conselho desse diretor dizendo a ela que deveria ir para os Estados Unidos, onde haveria certamente maiores oportunidades para sua carreira de atriz. Ficar na Inglaterra iria limitar seus objetivos. Ela ouviu atentamente o que Pearson lhe aconselhou e começou então a planejar sua viagem para Hollywood. Quem sabe poderia dar certo por lá.

Pablo Aluísio. 

Os Filmes de Vivien Leigh - Parte 2

O filme que fez Hollywood se interessar por Vivien Leigh foi o drama histórico "Fogo Por Sobre a Inglaterra", que se passava nos tempos do reinado da Rainha Elizabeth I. Vivien ficou extremamente bem no filme, com roupas de época. Ela ainda era bem jovem e sua imagem chamou a atenção dos grandes estúdios americanos. O fato desse filme inglês ser exibido nos cinemas dos Estados Unidos serviu como um cartão de visitas da atriz no outro lado do Atlântico.

Esse filme também foi um marco na vida pessoal da atriz pois ela conheceu o ator Laurence Olivier com quem iria se casar futuramente. O fato de ambos serem atores, lutando pela carreira em Londres na pequena indústria cinematográfica local, acabou servindo de atração entre eles. O romance não demorou muito a acontecer, até porque Vivien se sentia bem solitária nos primeiros dias na capital britânica. Seus familiares e amigos ficaram no interior e em Londres ela precisou formar um novo círculo de amigo. Era uma nova vida que começava para ela.

O filme seguinte na carreira de Vivien Leigh foi um filme de espionagem, passado durante a primeira guerra mundial, chamado "Jornada Sinistra". A atriz interpretava uma personagem chamada Madeleine Goddard. Ela era uma espiã francesa em Londres que acabava se apaixonando por um espião alemão, seu inimigo no conflito. O Barão Karl Von Marwitz era interpretado pelo ator Conrad Veidt. Esse filme foi lançado em 1937, dois anos antes da eclosão da II Guerra Mundial. Hitler já estava no poder na Alemanha, mas poucos ainda sabiam que uma nova guerra, pior ainda do que a anterior, estava prestes a varrer a Europa mais uma vez. Para Vivien foi algo até perturbador fazer esse filme, principalmente pelas coisas que estavam prestes a acontecer, com bombardeios alemães diários em Londres, algo que ela própria iria vivenciar.

Nesse mesmo ano Vivien ainda iria atuar em uma comédia romântica bem leve chamada "Tempestade Num Copo D'Água". Ela interpretava uma jornalista investigativa de nome Victoria Gow. Quando o filme começa ela parte em busca de histórias indiscretas envolvendo um figurão da política, mas de forma irônica acabava se apaixonando por ele. O curioso sobre esses três últimos filmes de Leigh é que os três foram lançados no Brasil também, demonstrando que ela já era uma artista conhecida em nosso país, antes mesmo da explosão de "E O Vento Levou...". Vivien ainda não era uma grande estrela, algo que só iria acontecer mesmo com o lançamento desse épico americano, considerado por muitos como um dos maiores filmes de todos os tempos.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Hollywood Boulevard - Marilyn Monroe - Texto IV

O último ano de Marilyn Monroe - O último ano da vida de Marilyn Monroe foi bem turbulento. Ela resolveu se livrar de coisas e pessoas que não estavam lhe fazendo bem. Por recomendação de seu terapeuta Marilyn resolveu que pela primeira vez em sua vida iria comprar uma casa própria. A atriz viveu toda a sua vida alugando e sendo despejada de apartamentos de Los Angeles e seu psicólogo lhe disse que isso criou nela uma espécie de trauma, onde seu subconsciente lhe passava a mensagem subliminar de que ela na verdade não pertencia a lugar nenhum e nem tinha raízes seguras onde se fixar. Marilyn gostou da explicação e comprou uma bela casa nos arredores da cidade - nada luxuoso ou extravagante, mas acima de tudo aconchegante. Conformou confessou a um repórter adorou a sensação de ser dona de sua própria casa, onde poderia ficar como bem entendesse, totalmente à vontade.

Como o casamento também vinha de mal a pior Marilyn resolveu despachar seu marido, o escritor Arthur Miller. Marilyn havia se apaixonado por ele principalmente por ser uma pessoa culta que passava uma imagem paterna para ela. Na vida a dois Marilyn porém se decepcionou completamente com ele. Miller caiu em um ostracismo incrível na carreira onde não produzia ou escrevia mais nada que fosse relevante ou elogiado. Além disso se mostrou totalmente submisso a esposa, carregando suas malas para cima e para baixo. Nos últimos meses Miller havia virado praticamente um empregado de Marilyn e isso a deixou completamente decepcionada com ele. Marilyn queria um homem de verdade ao seu lado, não um capacho, um verme que dizia sim a praticamente tudo o que ele queria ou mandava. Não demorou muito e Marilyn o mandou embora de sua vida, dizendo que além de ser um banana ele havia se revelado um tremendo de um chato!

Marilyn na verdade estava mirando nos irmãos Kennedy. Seria uma reviravolta e tanto em sua vida se ela conseguisse conquistar Bob ou então tivesse a chance de emplacar um romance com o próprio presidente dos Estados Unidos, JFK! Não seria o máximo se tornar a primeira dama do país depois de brilhar por tantos anos no mundo do cinema? Isso tudo porém não passava de um delírio de Marilyn já que nenhum deles estava disposto a colocar a carreira política em jogo por causa de Marilyn e suas loucuras. De qualquer forma Marilyn estava pelo menos respirando ares novos em sua vida. Uma sensação de mudança a tinha deixado de melhor humor a tal ponto que convidou o fotógrafo George Burns para tirar algumas fotos de seu novo lar para a capa de uma revista de decoração. A foto acima, por exemplo, foi tirada apenas seis semanas antes de sua morte.

Nas fotos Marilyn surgia feliz e sorridente porém os velhos fantasmas do passado ainda a incomodavam. Marilyn tinha dois grandes receios na vida, o primeiro era terminar louca como sua mãe, internada em uma instituição psiquiátrica. Muitos parentes de Marilyn tinham desenvolvido problemas mentais no passado de sua família e ela tinha pavor de também começar a apresentar sinais de insanidade. O segundo grande medo de sua vida era terminar sozinha seus dias, sem marido ou filhos. Por ter feito muitos abortos na juventude, Marilyn sabia que agora com mais de 30 anos o sonho da maternidade ficava cada vez mais distante. Isso a deixava deprimida, principalmente nas noites solitárias. E foi justamente numa noite dessas, na privacidade de seu quarto, ouvindo um disco de Frank Sinatra, que ela finalmente encontraria a paz que tanto desejava.

Pablo Aluísio.

O Que Pode um Beijo

O que Pode um Beijo
Mais um faroeste B na filmografia de Marilyn Monroe. Nessa época ela ainda era bem jovem e estava tentando seu lugar so sol em Hollywood. Como era uma jovem bonita, foi escalada para fazer parte do elenco de apoio, no grupo de belas coristas de um saloon. Embora já tivesse adotado aquela imagem de Marilyn que todos conhecemos, achei seu visual meio estranho nesse filme, tudo por causa de uns cachinhos dourados que fizeram em seu cabelo. Ficou bem fora da casinha, um penteado meio mal feito. Não caiu bem. 

Em termos de história esse western contava mais uma história da expansão das ferrovias rumo ao oeste selvagem. Esses trens antigos mudaram a história dos Estados Unidos, mas não eram bem vistos por todos. A ferrovia significava a modernidade e muitos odiavam isso, fazendo muitas vezes operações de sabotagens nas ferrovias, o que colocava em risco a própria vida dos passageiros. No caso desse filme era justamente isso que acontecia. Bandidos contratados por donos de diligências tentando sabotar as linhas de trens que seguiam rumo ao oeste. 

O que Pode um Beijo (A Ticket to Tomahawk, Estados Unidos, 1950) Direção: Richard Sale / Roteiro: Mary Loos, Richard Sale / Elenco: Dan Dailey, Anne Baxter, Rory Calhoun, Walter Brennan, Marilyn Monroe / Sinopse: Primeiro filme da atriz Marilyn Monroe na década de 1950. Ainda em papel bem secundário, ela interpretava uma bailarina de saloon nesse filme de faroeste B de Hollywood. 

Pablo Aluísio. 

Loucos de Amor

Loucos de Amor
Depois da euforia do filme anterior Marilyn Monroe desceu um degrau na carreira. Não que fosse um filme ruim, nada disso, mas que não iria abrir maior espaço para ela que teria que novamente interpretar o papel de uma loira burra e gostosa. Era uma comédia maluca dos Irmãos Marx, então não haveria mesmo oportunidade para Marilyn Monroe mostrar muita coisa no meio dessa confusão divertida. Tudo no roteiro havia sido escrito para que os Irmãos Marx brilhassem em cena com seu humor. Para Marilyn só sobrou fazer mais um extra baseado apenas em sua beleza. 

Revisto hoje em dia esse filme entretanto serve para uma constatação de que Marilyn tinha mesmo jeito para a comédia e o humor, algo que seria explorado em seus primeiros filmes de estrela de Hollywood. Ela era certamente uma garota bonita, todos sabiam disso, mas ainda assim esbanjava talento para cenas de humor. E essa pode ser considerada a primeira experiência da atriz nesse estilo cinematográfico, algo que ela soube muito bem explorar dede o começo de sua filmografia. 

Loucos de Amor (Love Happy, Estados Unidos, 1949) Direção: David Miller / Roteiro: Frank Tashlin, Mac Benoff, Harpo Marx / Elenco: Groucho Marx, Harpo Marx, Chico Marx, Marilyn Monroe,  Ilona Massey / Sinopse: Os irmãos Marx vão para a Broadway e criam todos os tipos de confusões no meio teatral de Nova Iorque. 

Pablo Aluísio.