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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A Delícia de um Dilema

A Delícia de um Dilema
Rally 'Round the Flag, Boys!, conhecido no Brasil como A Delícia de um Dilema, foi lançado originalmente em 23 de dezembro de 1958, em Nova York, chegando ao circuito nacional americano em fevereiro de 1959. A direção ficou a cargo de Leo McCarey, veterano da comédia americana e responsável por clássicos como The Awful Truth e Duck Soup, que também produziu e escreveu o roteiro ao lado de Claude Binyon. O filme foi realizado pela 20th Century-Fox, em CinemaScope e Technicolor, e adaptou o romance homônimo de Max Shulman, publicado em 1957. O elenco era especialmente atraente para o público da época, reunindo Paul Newman, Joanne Woodward, Joan Collins, Jack Carson, Dwayne Hickman e Tuesday Weld. Newman e Woodward, que haviam se casado pouco antes da produção, interpretam o casal Harry e Grace Bannerman, dando ao filme uma dimensão curiosamente próxima da vida real dos atores. A história se passa em Putnam's Landing, uma pequena comunidade suburbana de Connecticut que tem sua rotina perturbada quando o Exército decide instalar nas proximidades uma base secreta de mísseis. Grace Bannerman, extremamente envolvida nas atividades cívicas da cidade, organiza uma campanha contra a instalação militar e acaba colocando o marido, especialista em relações públicas, no centro da crise. Harry é então encarregado de negociar com os militares e, ao mesmo tempo, precisa enfrentar a presença sedutora de Angela Hoffa, sua vizinha interpretada por Joan Collins. O resultado é uma comédia de costumes que mistura casamento, adultério, política local, Guerra Fria, patriotismo, suburbanização e uma série de situações absurdas.

A reação da crítica americana na época foi mista, e essa divisão se explica em grande parte pela própria natureza do filme. Bosley Crowther, do The New York Times, foi relativamente favorável ao aspecto cômico e resumiu sua avaliação afirmando que Rally 'Round the Flag, Boys! "is no epic. But it's good for laughs", ou seja, não era uma obra grandiosa, mas proporcionava boas risadas. A Variety também encontrou qualidades na produção e destacou que algumas das piadas eram elaboradas e cuidadosamente cronometradas, "as carefully timed as a dance sequence". O problema, segundo parte dos críticos, era que McCarey parecia dividido entre uma comédia romântica tradicional e uma sátira política sobre a paranoia militar da Guerra Fria. O filme também tinha uma quantidade considerável de diálogos e situações episódicas, o que fazia com que a narrativa parecesse menos ágil do que as melhores comédias screwball do diretor. O Turner Classic Movies observa justamente que muitas cenas dependem de diálogos longos e de personagens praticamente parados, algo que prejudicava o ritmo frenético normalmente associado à tradição da screwball comedy de McCarey. Ainda assim, o prestígio de Paul Newman estava em ascensão naquele momento, depois de The Long, Hot Summer e Cat on a Hot Tin Roof, ambos de 1958, e isso ajudou a despertar interesse pelo lançamento. A crítica americana, portanto, não tratou o filme como um desastre, mas tampouco o colocou entre os grandes trabalhos de McCarey. A impressão predominante foi a de uma comédia irregular, com bons momentos, excelente elenco e algumas situações genuinamente engraçadas, mas incapaz de alcançar a consistência dos melhores trabalhos do diretor.

Na Europa, a avaliação também foi longe de ser unânime, embora o filme tenha despertado posteriormente interesse entre historiadores e estudiosos da comédia americana. No Reino Unido, a produção não alcançou o mesmo prestígio crítico de outras obras americanas do período, sendo frequentemente lembrada mais como uma comédia tardia de McCarey do que como um clássico absoluto. A perspectiva posterior do cinema britânico foi particularmente interessante porque passou a enxergar no filme um retrato involuntário da sociedade americana do final dos anos 1950, marcada pela prosperidade suburbana, pelo medo nuclear e pela Guerra Fria. Na França, a redescoberta do longa foi igualmente ambígua. O Critikat, ao analisar o filme décadas depois, descreveu a produção como uma comédia "aussi fantaisiste que débridée" sobre os excessos do conservadorismo americano dos anos 1950, reconhecendo sua natureza peculiar e seu caráter satírico. Essa avaliação posterior é importante porque ajuda a explicar por que o filme acabou sendo mais interessante para historiadores do cinema do que sua recepção inicial poderia sugerir. O longa mistura a tradição da comédia screwball com temas que estavam profundamente ligados à realidade americana daquele momento, como bases militares, corrida armamentista, medo de ataques nucleares e a transformação das pequenas cidades em subúrbios. Ao mesmo tempo, a crítica europeia também percebeu que a sátira nem sempre era suficientemente afiada e que McCarey frequentemente preferia o humor físico e os conflitos conjugais à análise política. O filme não recebeu indicações ao Oscar nem conquistou grandes prêmios internacionais, embora Leo McCarey tenha posteriormente recebido uma indicação do Directors Guild of America pelo trabalho de direção. Sua trajetória de premiações, portanto, foi modesta, e o reconhecimento mais duradouro acabou vindo da importância histórica do elenco e da carreira de seu diretor.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 1,9 milhão, Rally 'Round the Flag, Boys! era uma produção relativamente importante para uma comédia de 1958, especialmente por utilizar o formato CinemaScope e reunir estrelas em ascensão. O filme obteve cerca de US$ 3,4 milhões em aluguel cinematográfico nos Estados Unidos e Canadá, segundo os dados históricos associados à produção, o que indica que conseguiu recuperar seu investimento e alcançar um resultado comercial razoável. Não existem números internacionais confiáveis e amplamente documentados que permitam estabelecer uma renda mundial comparável aos padrões atuais, algo comum em produções americanas dos anos 1950. O desempenho comercial foi impulsionado principalmente pela popularidade de Paul Newman e pelo interesse despertado pela parceria cinematográfica entre Newman e Joanne Woodward. O público encontrou no filme uma combinação de comédia conjugal, situações de adultério, humor militar e uma sátira relativamente leve da vida suburbana. A presença de Joan Collins como a sensual Angela Hoffa também funcionou como importante elemento de atração comercial. Entretanto, a recepção popular não foi suficientemente entusiasmada para transformar o longa em um dos grandes sucessos da década. As avaliações atuais do público são relativamente modestas: o Rotten Tomatoes registra 45% de aprovação dos espectadores, enquanto o IMDb apresenta aproximadamente 5,9/10. Isso mostra que o filme conquistou uma parcela do público, mas não desenvolveu uma reputação popular comparável à de outras comédias de McCarey. Seu maior valor comercial acabou sendo também histórico: capturou Paul Newman em um momento muito específico de sua ascensão ao estrelato e reuniu o futuro casal Newman-Woodward em uma comédia pouco lembrada de suas carreiras.

Atualmente, Rally 'Round the Flag, Boys! ocupa uma posição bastante curiosa dentro da filmografia de Leo McCarey. Não é geralmente considerado um de seus melhores filmes e está muito distante do prestígio de The Awful Truth, Going My Way ou Make Way for Tomorrow. O Rotten Tomatoes apresenta apenas 30% de aprovação da crítica, baseado em dez avaliações, com média de 5/10, confirmando que a obra permanece controversa entre os críticos contemporâneos. Entretanto, algumas revisões modernas passaram a observar características que talvez não fossem tão evidentes em 1958. O estudo publicado pelo MUBI Notebook considera o filme uma produção esquecida que mistura diversos elementos da sociedade americana do final dos anos 1950 e identifica momentos de verdadeiro encanto dentro de uma narrativa irregular. Historiadores também destacam a maneira como McCarey recupera elementos da comédia screwball, colocando um casal em crise diante da presença de uma terceira pessoa sedutora, mas acrescentando ao modelo tradicional a tensão política da Guerra Fria. Nesse sentido, o filme pode ser visto hoje como um documento cultural particularmente interessante sobre a América de Eisenhower, mais do que simplesmente como uma comédia bem-sucedida. A preocupação com bases de mísseis, a presença do Exército na comunidade, a obsessão pela respeitabilidade social e a sexualidade tratada de maneira relativamente ousada revelam muito sobre os valores e medos daquela sociedade. Também é importante observar que Paul Newman e Joanne Woodward haviam se casado pouco antes da produção, acrescentando um elemento curioso à dinâmica romântica do filme. Dessa forma, embora não seja hoje considerado um clássico essencial, Rally 'Round the Flag, Boys! merece ser redescoberto por admiradores de Newman, Woodward, Joan Collins e da comédia americana clássica, além de oferecer um retrato bastante singular da sociedade americana durante a Guerra Fria.

A Delícia de um Dilema (Rally 'Round the Flag, Boys!, Estados Unidos, 1958) Direção: Leo McCarey / Roteiro: Claude Binyon e Leo McCarey, baseado no livro Rally 'Round the Flag, Boys!, de Max Shulman / Elenco: Paul Newman, Joanne Woodward, Joan Collins, Jack Carson, Dwayne Hickman e Tuesday Weld / Sinopse: Quando o Exército escolhe sua pequena cidade para instalar uma base secreta de mísseis, uma dona de casa decide liderar a resistência local, enquanto seu marido tenta negociar com os militares e se vê envolvido em uma perigosa confusão conjugal provocada por uma vizinha sedutora.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Paul Newman - The Long, Hot Summer (1958)


Paul Newman - The Long, Hot Summer (1958)
O filme O Mercador de Almas (The Long, Hot Summer) foi lançado em 3 de abril de 1958, dirigido por Martin Ritt e estrelado por Paul Newman, Joanne Woodward, Orson Welles, Anthony Franciosa, Lee Remick e Angela Lansbury. Inspirado em contos e personagens criados por William Faulkner, o filme se passa em uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos durante um verão sufocante. A história acompanha Ben Quick, um jovem ambicioso e carismático que chega à cidade carregando a reputação de incendiário. Sua presença chama a atenção do poderoso fazendeiro Will Varner, que vê nele um possível sucessor para administrar seus negócios e, talvez, um futuro marido para sua filha Clara. No entanto, Clara é uma mulher independente e resistente às tentativas do pai de controlar sua vida. Entre disputas familiares, ambições pessoais e tensões românticas, Ben tenta conquistar seu espaço em uma comunidade desconfiada. O calor intenso funciona como metáfora para os conflitos emocionais dos personagens. Assim, mistura drama, romance e estudo de personagens em uma narrativa marcante.

Quando foi lançado, recebeu uma recepção crítica amplamente positiva. O The New York Times destacou que o filme era “um drama vigoroso, repleto de personagens fortes e interpretações memoráveis”. Já o Los Angeles Times elogiou especialmente a atuação de Paul Newman, observando que o ator demonstrava “uma presença magnética que domina a tela”. A revista Variety descreveu o longa como “uma adaptação inteligente e envolvente do universo de William Faulkner”. Muitos críticos elogiaram a direção de Martin Ritt, que conseguiu capturar a atmosfera do sul americano sem cair em estereótipos simplistas. A química entre Paul Newman e Joanne Woodward também foi amplamente celebrada. O filme foi visto como uma produção madura e sofisticada, voltada para um público adulto. Dessa forma, a crítica reconheceu a obra como um dos dramas mais interessantes de 1958.

A repercussão crítica tornou-se ainda mais favorável após sua exibição em festivais internacionais. No Festival de Cannes de 1958, Paul Newman recebeu o prêmio de Melhor Ator, reconhecimento que ajudou a consolidar sua posição entre os maiores talentos de sua geração. Muitos críticos destacaram a intensidade emocional de sua interpretação de Ben Quick. Publicações como The New Yorker elogiaram o filme por sua combinação de romance, conflito social e análise psicológica dos personagens. A atuação de Orson Welles também recebeu atenção especial, graças à força e à autoridade que trouxe ao papel de Will Varner. Embora o filme não tenha sido um grande competidor no Oscar daquele ano, sua reputação crítica permaneceu elevada. Com o passar das décadas, estudiosos passaram a considerá-lo uma das melhores adaptações inspiradas na obra de Faulkner. Assim, sua importância artística continuou a crescer.

Do ponto de vista comercial foi um sucesso significativo. O filme beneficiou-se da crescente popularidade de Paul Newman, que havia conquistado reconhecimento com produções anteriores como Cat on a Hot Tin Roof. O público respondeu favoravelmente à combinação de romance, drama familiar e tensão emocional. As bilheterias foram sólidas tanto nos Estados Unidos quanto em diversos mercados internacionais. A presença de Joanne Woodward, uma atriz já muito respeitada, também ajudou a atrair espectadores. O longa permaneceu em cartaz por várias semanas e teve boa vida posterior na televisão. Muitos espectadores apreciaram especialmente o relacionamento turbulento entre Ben e Clara. Assim, o filme consolidou-se como um sucesso comercial e artístico. Seu desempenho ajudou a fortalecer ainda mais a carreira de seus protagonistas.

Atualmente é considerado um dos melhores dramas românticos produzidos em Hollywood durante os anos 1950. O filme é frequentemente lembrado pela química extraordinária entre Paul Newman e Joanne Woodward, que eram casados na vida real e se tornaram um dos casais mais famosos da história do cinema. Críticos modernos elogiam a direção segura de Martin Ritt, a força do roteiro e a qualidade das interpretações. A atuação de Newman continua sendo considerada uma das melhores de sua carreira inicial. O filme também é valorizado por sua representação das tensões sociais e familiares do sul americano. Novas gerações de cinéfilos continuam descobrindo a obra por meio de restaurações e exibições em canais especializados. Dessa forma, sua reputação permanece extremamente sólida. O Mercador de Almas continua sendo um clássico elegante e envolvente do cinema americano.

O Mercador de Almas (The Long, Hot Summer, Estados Unidos, 1958) Direção: Martin Ritt / Roteiro: Irving Ravetch e Harriet Frank Jr., baseado em contos e personagens das obras The Hamlet e outras histórias de William Faulkner / Elenco: Paul Newman, Joanne Woodward, Orson Welles, Anthony Franciosa, Lee Remick e Angela Lansbury / Sinopse: Um jovem ambicioso chega a uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos e se envolve nos conflitos de uma poderosa família local, enquanto tenta conquistar a confiança do patriarca e o coração de sua filha.

Erick Steve. 

O Mercador de Almas

O Mercador de Almas
Em "O Mercador de Almas" temos várias características que fizeram o cinema americano se tornar o melhor do mundo durante a década de 1950 . O elenco é fenomenal. Além de Paul Newman em ótima forma (tanto do ponto de vista de talento como de presença) temos um personagem à prova de falhas interpretado pelo, ora vejam só, o mito do cinema Orson Welles. Nem precisa dizer que ele é realmente a alma de todo o filme. Gorducho, malvado, esbanjando rabugice em cada cena, Welles toma conta de tudo, literalmente. Com filmes como esse percebemos que além de grande cineasta ele também era um ator fantástico. Sua voz de trovão ecoa em cada cena, fazendo os atores que contracenaram com ele sumirem lentamente.

Em termos de roteiro e argumento o filme se parece bastante com outro clássico da filmografia de Newman, "Gata em Teto de Zinco Quente". Esse, assim como aquele, também é ambientado numa típica fazenda do Sul dos EUA. O enredo também gira em torno dos filhos de um rico fazendeiro, seus problemas familiares e as complicações cotidianas dessas famílias. Para completar o "Mercador de Almas" também é inspirado na obra de um grande autor, a novela "The Hamlet" de William Faulkner. A única diferença mais nítida é que "Gata em Teto de Zinco Quente" é bem mais teatral do que esse, mas fora isso são extremamente parecidos. De qualquer forma uma coisa é certa: Ambos os filmes são fundados em excelentes diálogos e interpretações inspiradas. Por essa época Paul Newman havia se tornado um dos grandes atores do cinema, mostrando de forma excepcional que passava muito longe do rótulo vazio de galã, muito pelo contrário, Newman estava sempre se arriscando em personagens com muita profundidade psicológica, complexos, muitas vezes anti-heróis, crápulas, sem o menor remorso moral. Nesse "Mercador de Almas" ele novamente encontra um papel à sua altura. Uma obra cinematográfica do mais alto nível que merece ser redescoberta.

O Mercador de Almas (The Long Hot Summer, Estados Unidos, 1958) Direção: Martin Ritt / Elenco: Paul Newman, Joanne Woodward, Anthony Franciosa, Orson Welles, Lee Remick / Sinopse: Ben Quick (Paul Newman) deixa uma cidade após suspeitarem, sem provas, que é um incendiário. Ele põe o pé na estrada e consegue carona com Eula Varner (Lee Remick) e Clara Varner (Joanne Woodward). Eula é casada com Jody Varner (Anthony Franciosa), cujo pai, Will Varner (Orson Welles), é "dono" de Frenchman's Bend, uma pequena cidade do Mississipi. Já Clara, a filha solteira de Will, trabalha como professora. Ben se estabelece lá e logo consegue uma ascensão meteórica, indo morar na casa do seu patrão, Will. Ele se torna um sério candidato para casar-se com Clara, pois Will não tolera a idéia que ela não lhe deixe herdeiros.

Pablo Aluísio.