segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Gata em Teto de Zinco Quente

Gata em Teto de Zinco Quente
Cat on a Hot Tin Roof, conhecido no Brasil como Gata em Teto de Zinco Quente, foi lançado nos Estados Unidos em 29 de agosto de 1958, sob a direção de Richard Brooks, que também escreveu o roteiro ao lado de James Poe, adaptando a peça homônima de Tennessee Williams, vencedora do Pulitzer em 1955. A produção da Metro-Goldwyn-Mayer reuniu um dos elencos mais prestigiosos de Hollywood naquele momento, formado por Paul Newman, Elizabeth Taylor, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson e Madeleine Sherwood. Newman interpretou Brick Pollitt, um ex-astro do futebol americano que se tornou alcoólatra e emocionalmente distante depois da morte de seu melhor amigo, enquanto Taylor interpretou Maggie, sua esposa, uma mulher determinada a recuperar o marido e garantir seu lugar na família. A trama se passa na propriedade rural de Big Daddy Pollitt, poderoso proprietário de terras do Mississippi, que reúne a família para comemorar seu aniversário. Entretanto, por trás da festa existe uma enorme tensão: Big Daddy está gravemente doente, embora inicialmente não saiba toda a extensão de sua condição, e seus filhos disputam silenciosamente a futura herança. Brick permanece indiferente a tudo, refugiando-se na bebida e recusando-se a manter relações conjugais com Maggie. Ao longo de uma única noite e de um intenso confronto familiar, antigos ressentimentos, mentiras, desejos, ciúmes e segredos começam a vir à tona. O resultado foi um dos grandes dramas familiares de Hollywood dos anos 1950.

A reação da crítica americana no lançamento foi fortemente positiva, especialmente em relação às atuações. Bosley Crowther, do The New York Times, escreveu que o elenco praticamente se "destrói" de tanto atuar e gritar, classificando o resultado como um espetáculo "ferocious and fascinating". Crowther também elogiou particularmente Paul Newman, descrevendo-o como um homem jovem, atormentado e posto à prova, enquanto considerou Elizabeth Taylor "terrific" no papel de Maggie. A Variety também foi bastante favorável, chamando o longa de "a powerful, well-seasoned film" e destacando Newman como um dos melhores atores do cinema. O Los Angeles Times, através de Philip K. Scheuer, considerou que a adaptação preservava a força do drama teatral e afirmou que Brooks havia extraído interpretações "stunningly real and varied" de seu elenco. A grande ressalva americana estava relacionada à adaptação do texto de Tennessee Williams. O Código Hays impediu que o filme tratasse abertamente da homossexualidade de Brick e de sua relação emocional com Skipper, elemento fundamental da peça original. Mesmo assim, os críticos reconheceram que a tensão permanecia perceptível por baixo dos diálogos. O filme foi, portanto, simultaneamente considerado uma excelente realização cinematográfica e uma adaptação inevitavelmente censurada de uma obra mais ousada.

Na Europa, especialmente no Reino Unido, a discussão sobre a censura tornou-se ainda mais importante. O The Guardian, em sua análise histórica, observou que a versão cinematográfica havia se tornado muito mais "polite" que a peça, perdendo parte de sua franqueza sobre a homossexualidade. O crítico britânico destacou que o filme transformou aquilo que era uma questão central da peça em uma tensão apenas sugerida. Décadas depois, Peter Bradshaw, também no Guardian, voltou ao filme e afirmou que não era possível assisti-lo sem perceber como a questão da homossexualidade havia sido censurada. Ainda assim, Bradshaw considerou extraordinária a atuação de Elizabeth Taylor, cuja Maggie foi descrita como uma personagem de intensidade "mesmerically feline". Na França, La Chatte sur un toit brûlant também se tornou um filme muito conhecido, embora a avaliação posterior tenha enfatizado justamente aquilo que a censura havia retirado da história. A Cinémathèque Française registra a produção como uma importante adaptação de Tennessee Williams e destaca o conflito familiar, a doença do patriarca e a crise conjugal entre Brick e Maggie. O filme recebeu seis indicações ao Oscar de 1959, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor para Richard Brooks, Melhor Ator para Paul Newman, Melhor Atriz para Elizabeth Taylor, Fotografia em Cores e Roteiro Adaptado. Não venceu nenhuma categoria, mas o número de indicações demonstrou a enorme consideração da Academia pela produção.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 2,3 milhões, Cat on a Hot Tin Roof transformou-se em um extraordinário sucesso comercial. A produção arrecadou cerca de US$ 11,2 milhões, tornando-se o filme de maior bilheteria da MGM em 1958 e o terceiro filme de maior arrecadação daquele ano nos Estados Unidos. O resultado foi particularmente impressionante porque se tratava de um drama adulto, essencialmente concentrado em poucos personagens e em conflitos familiares, sem grandes cenas de ação ou espetáculos típicos das superproduções da época. O principal fator de atração foi a combinação de Paul Newman e Elizabeth Taylor, dois dos maiores símbolos de Hollywood naquele momento. Taylor havia acabado de consolidar sua posição como uma das grandes estrelas do cinema, enquanto Newman estava rapidamente se tornando um dos principais atores de sua geração. O público também foi atraído pelo caráter provocativo da história, mesmo que a censura tivesse suavizado seu conteúdo. A imagem de Taylor como Maggie, frequentemente vestida com roupas extremamente elegantes e sensuais, tornou-se um dos elementos mais memoráveis da publicidade do filme. Newman, por sua vez, apresentou um personagem muito diferente dos heróis convencionais, marcado pelo alcoolismo, pela culpa e pela incapacidade de enfrentar seus sentimentos. A combinação entre sexualidade, riqueza, doença, herança e conflitos familiares fez com que o filme ultrapassasse o público habitual dos dramas teatrais. O resultado comercial comprovou que uma produção baseada em Tennessee Williams poderia ser simultaneamente sofisticada e extremamente popular.

Atualmente, Cat on a Hot Tin Roof é considerado um dos grandes clássicos do cinema americano dos anos 1950 e uma das obras mais importantes das carreiras de Paul Newman e Elizabeth Taylor. O filme mantém 97% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, com mais de três dezenas de avaliações, e 92% de aprovação do público, números que demonstram a extraordinária longevidade de sua reputação. No Metacritic, apresenta 84/100, classificado como "Universal Acclaim", enquanto a avaliação dos usuários permanece em território bastante favorável. A principal crítica contemporânea continua sendo a mesma levantada desde 1958: a adaptação perdeu parte da força da peça de Tennessee Williams ao eliminar praticamente todas as referências explícitas à homossexualidade de Brick. O próprio Williams ficou profundamente insatisfeito com a versão cinematográfica, e Paul Newman também manifestou decepção com a maneira como o material original foi alterado. Entretanto, essa limitação histórica não destruiu o poder dramático do filme. Pelo contrário, a tensão entre o que é dito e aquilo que permanece não dito tornou-se parte fundamental da experiência. A atuação de Newman é hoje reconhecida como uma das mais importantes de sua carreira, enquanto Taylor criou uma Maggie simultaneamente sensual, desesperada, inteligente e determinada. Burl Ives também permanece memorável como Big Daddy, uma figura brutal e vulnerável diante da própria mortalidade. A fotografia de William Daniels, a atmosfera sufocante da mansão e a direção de Brooks completam uma obra que continua fascinando novas gerações. Assim, mesmo sendo uma adaptação censurada, Cat on a Hot Tin Roof sobreviveu ao seu tempo e permanece como um dos grandes dramas familiares da história de Hollywood.

Gata em Teto de Zinco Quente (Cat on a Hot Tin Roof, Estados Unidos, 1958) Direção: Richard Brooks / Roteiro: Richard Brooks e James Poe, baseado na peça Cat on a Hot Tin Roof, de Tennessee Williams / Elenco: Paul Newman, Elizabeth Taylor, Burl Ives, Jack Carson, Judith Anderson e Madeleine Sherwood / Sinopse: Durante o aniversário de um poderoso fazendeiro do Mississippi, uma família mergulhada em disputas pela herança é obrigada a confrontar doenças, ressentimentos, ambição e os segredos que destruíram o casamento de Brick e Maggie.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

O Moço de Filadélfia

O Moço de Filadélfia
The Young Philadelphians, lançado no Brasil como O Moço de Filadélfia, chegou aos cinemas em 1959, com direção de Vincent Sherman, cineasta veterano de Hollywood que retornava à Warner Bros. depois de vários anos afastado do estúdio. O filme é baseado no romance The Philadelphian, de Richard P. Powell, publicado em 1956, e teve roteiro de James Gunn, com participação não creditada de Dalton Trumbo em uma etapa da elaboração do texto. A produção foi estrelada por Paul Newman, acompanhado por Barbara Rush, Alexis Smith, Brian Keith, Diane Brewster e Robert Vaughn. Newman interpreta Anthony "Tony" Judson Lawrence, jovem advogado que nasce em circunstâncias socialmente complicadas e decide construir uma carreira capaz de levá-lo à elite da Filadélfia. O filme acompanha sua trajetória desde a juventude, mostrando a influência de sua mãe e as dificuldades provocadas pela diferença de classe entre sua família e os círculos sociais mais ricos da cidade. Tony escolhe o Direito como caminho para ascender socialmente e rapidamente demonstra grande inteligência e ambição. Ao entrar em um importante escritório de advocacia, começa a descobrir que o mundo profissional é tão competitivo e moralmente ambíguo quanto a sociedade que deseja integrar. Sua vida pessoal também é afetada por suas escolhas, especialmente por causa de seu relacionamento com Joan Dickinson, interpretada por Barbara Rush. Quando um velho amigo, Chet Gwynn, vivido por Robert Vaughn, é acusado de assassinato, Tony precisa decidir se continuará seguindo uma carreira baseada exclusivamente em ambição ou se colocará seus princípios em risco para defender alguém que considera injustamente acusado.

A recepção da crítica americana foi mista, com elogios às interpretações e críticas ao excesso de melodrama. A. H. Weiler, do The New York Times, foi particularmente severo e classificou o filme como "sudsy", observando que, embora a produção procurasse fazer um comentário social importante, acabava produzindo apenas uma análise superficial das diferenças de classe. Weiler também considerou que as dificuldades dos ricos e dos pobres poderiam ser igualmente pouco dramáticas quando apresentadas daquela maneira. O Los Angeles Times, através do crítico Philip K. Scheuer, também apresentou reservas: elogiou Robert Vaughn, mas considerou que as demais atuações não eram excepcionais e criticou o ritmo, afirmando que o filme "chuffs and chugs along the Main Line for 130 minutes". Scheuer também considerou a longa sequência do julgamento excessivamente extensa. O New York Daily News, em crítica de Dorothy Masters, foi ainda mais duro, afirmando que a essência do romance de Richard Powell parecia ter "vaporized" na adaptação cinematográfica e que a direção de Sherman provocava mais admiração do que empatia. Apesar dessas críticas, havia reconhecimento de que Paul Newman possuía uma presença cinematográfica muito forte e que o jovem Robert Vaughn oferecia uma atuação especialmente marcante. O filme também era visto como uma produção tecnicamente elegante, beneficiada pela fotografia em preto e branco de Harry Stradling Sr. e pelos figurinos de Howard Shoup. Assim, a crítica contemporânea não rejeitou completamente a obra, mas considerou que o potencial de seu material dramático era maior do que aquilo que Vincent Sherman conseguiu realizar.

Na Europa, a recepção também não transformou The Young Philadelphians em um grande clássico, embora o filme tenha despertado interesse especialmente pela atuação de Paul Newman e pela representação da elite jurídica americana. O longa recebeu no Reino Unido o título The City Jungle, enquanto na França foi conhecido como Ce monde à part, mostrando como seus distribuidores procuraram enfatizar o conflito entre diferentes mundos sociais. A avaliação posterior de críticos europeus tende a ser mais generosa com o filme do que algumas das críticas americanas de 1959. O alemão Lexikon des internationalen Films, por exemplo, resumiu a obra como uma adaptação literária "socialmente crítica", valorizando o elenco e a tentativa de abordar as diferenças de classe. Revisões posteriores também passaram a observar aspectos que dificilmente poderiam ser discutidos abertamente no período de lançamento, especialmente a representação de sexualidade, masculinidade e pressão social. O filme recebeu um reconhecimento importante na temporada de premiações de 1960: foi indicado a três Oscars, nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante, para Robert Vaughn, Melhor Fotografia em Preto e Branco, para Harry Stradling Sr., e Melhor Figurino em Preto e Branco, para Howard Shoup. Nenhum deles venceu, pois o Oscar de Ator Coadjuvante ficou com Hugh Griffith por Ben-Hur. Robert Vaughn também recebeu indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, prêmio que foi conquistado por Stephen Boyd por Ben-Hur. A indicação de Vaughn foi especialmente importante para sua carreira, pois o papel de Chet Gwynn chamou a atenção da indústria e ajudou a colocá-lo no caminho que posteriormente o levaria a The Magnificent Seven e à televisão em The Man from U.N.C.L.E..

Com duração de aproximadamente 2 horas e 16 minutos, The Young Philadelphians foi uma produção de prestígio da Warner Bros., embora os dados disponíveis atualmente não apresentem um orçamento oficial confiável. O desempenho comercial, entretanto, foi considerado bem-sucedido, contribuindo para consolidar Paul Newman como uma das grandes estrelas jovens de Hollywood. Estimativas históricas apontam para aproximadamente US$ 2,8 milhões em aluguel cinematográfico nos Estados Unidos e Canadá, um resultado significativo para um drama adulto em preto e branco daquele período. O filme chegou inclusive ao primeiro lugar em levantamentos semanais de bilheteria americanos durante sua carreira comercial, demonstrando que havia interesse considerável do público pela história e, principalmente, pelo crescente estrelato de Newman. O público também encontrou no filme elementos bastante atraentes: ascensão social, romance, conflitos familiares, corrupção profissional e um grande julgamento criminal. A transformação de Tony Lawrence de jovem ambicioso em advogado capaz de enfrentar as elites que anteriormente desejava impressionar oferecia uma estrutura narrativa clássica de ascensão e crise moral. Robert Vaughn, por sua vez, acrescentava uma dimensão trágica ao filme através de Chet Gwynn, veterano da Guerra da Coreia que retorna emocionalmente destruído e acaba envolvido em uma acusação de assassinato. A presença de Adam West, em uma pequena participação anterior à sua fama como Batman, também é uma curiosidade apreciada pelos admiradores do cinema clássico. Embora não tenha sido um fenômeno de bilheteria comparável aos grandes épicos de 1959, o resultado foi suficientemente forte para demonstrar que Newman já possuía enorme poder de atração junto ao público.

Atualmente, The Young Philadelphians ocupa uma posição interessante dentro da filmografia de Paul Newman. Não costuma ser colocado entre suas obras-primas, mas é considerado por muitos admiradores um drama jurídico e social subestimado, especialmente por registrar Newman em uma fase importante de sua carreira, pouco antes de filmes como Exodus, The Hustler e Hud. A avaliação contemporânea é mais favorável do que a recepção crítica original em alguns aspectos. No Rotten Tomatoes, o filme apresenta atualmente 71% de aprovação da crítica, embora baseado em apenas sete avaliações, e 80% de aprovação do público. No IMDb, mantém uma avaliação de aproximadamente 7,4/10, indicando que continua encontrando admiradores entre os espectadores modernos. Críticos posteriores costumam reconhecer que o melodrama envelheceu e que algumas situações parecem excessivamente artificiais, mas também destacam a força do elenco e, principalmente, a sequência final do julgamento. Robert Vaughn é frequentemente apontado como um dos grandes destaques da produção, e sua indicação ao Oscar permanece como a principal distinção individual do filme. O próprio tema da ascensão social de Tony Lawrence ganhou interesse retrospectivo porque apresenta uma sociedade em que riqueza, sobrenome e relações pessoais exercem enorme influência sobre as oportunidades profissionais. A questão da ética na advocacia também dá ao filme uma dimensão particularmente interessante para espectadores contemporâneos. Dessa maneira, embora The Young Philadelphians não tenha alcançado o status de clássico absoluto de Hollywood, continua sendo uma obra relevante para compreender a evolução de Paul Newman e a tradição dos dramas jurídicos americanos. Sua mistura de melodrama, crítica social e tribunal faz dele um filme que merece ser redescoberto, sobretudo por quem aprecia o cinema americano dos anos 1950 e os primeiros grandes trabalhos de Newman.

O Moço de Filadélfia (The Young Philadelphians, Estados Unidos, 1959) Direção: Vincent Sherman / Roteiro: James Gunn e Dalton Trumbo, baseado no livro The Philadelphian, de Richard P. Powell / Elenco: Paul Newman, Barbara Rush, Alexis Smith, Brian Keith, Diane Brewster e Robert Vaughn / Sinopse: Um jovem advogado determinado a conquistar seu lugar na elite da Filadélfia precisa escolher entre continuar sua ascensão profissional ou arriscar a carreira para defender um amigo acusado de assassinato.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

A Delícia de um Dilema

A Delícia de um Dilema
Rally 'Round the Flag, Boys!, conhecido no Brasil como A Delícia de um Dilema, foi lançado originalmente em 23 de dezembro de 1958, em Nova York, chegando ao circuito nacional americano em fevereiro de 1959. A direção ficou a cargo de Leo McCarey, veterano da comédia americana e responsável por clássicos como The Awful Truth e Duck Soup, que também produziu e escreveu o roteiro ao lado de Claude Binyon. O filme foi realizado pela 20th Century-Fox, em CinemaScope e Technicolor, e adaptou o romance homônimo de Max Shulman, publicado em 1957. O elenco era especialmente atraente para o público da época, reunindo Paul Newman, Joanne Woodward, Joan Collins, Jack Carson, Dwayne Hickman e Tuesday Weld. Newman e Woodward, que haviam se casado pouco antes da produção, interpretam o casal Harry e Grace Bannerman, dando ao filme uma dimensão curiosamente próxima da vida real dos atores. A história se passa em Putnam's Landing, uma pequena comunidade suburbana de Connecticut que tem sua rotina perturbada quando o Exército decide instalar nas proximidades uma base secreta de mísseis. Grace Bannerman, extremamente envolvida nas atividades cívicas da cidade, organiza uma campanha contra a instalação militar e acaba colocando o marido, especialista em relações públicas, no centro da crise. Harry é então encarregado de negociar com os militares e, ao mesmo tempo, precisa enfrentar a presença sedutora de Angela Hoffa, sua vizinha interpretada por Joan Collins. O resultado é uma comédia de costumes que mistura casamento, adultério, política local, Guerra Fria, patriotismo, suburbanização e uma série de situações absurdas.

A reação da crítica americana na época foi mista, e essa divisão se explica em grande parte pela própria natureza do filme. Bosley Crowther, do The New York Times, foi relativamente favorável ao aspecto cômico e resumiu sua avaliação afirmando que Rally 'Round the Flag, Boys! "is no epic. But it's good for laughs", ou seja, não era uma obra grandiosa, mas proporcionava boas risadas. A Variety também encontrou qualidades na produção e destacou que algumas das piadas eram elaboradas e cuidadosamente cronometradas, "as carefully timed as a dance sequence". O problema, segundo parte dos críticos, era que McCarey parecia dividido entre uma comédia romântica tradicional e uma sátira política sobre a paranoia militar da Guerra Fria. O filme também tinha uma quantidade considerável de diálogos e situações episódicas, o que fazia com que a narrativa parecesse menos ágil do que as melhores comédias screwball do diretor. O Turner Classic Movies observa justamente que muitas cenas dependem de diálogos longos e de personagens praticamente parados, algo que prejudicava o ritmo frenético normalmente associado à tradição da screwball comedy de McCarey. Ainda assim, o prestígio de Paul Newman estava em ascensão naquele momento, depois de The Long, Hot Summer e Cat on a Hot Tin Roof, ambos de 1958, e isso ajudou a despertar interesse pelo lançamento. A crítica americana, portanto, não tratou o filme como um desastre, mas tampouco o colocou entre os grandes trabalhos de McCarey. A impressão predominante foi a de uma comédia irregular, com bons momentos, excelente elenco e algumas situações genuinamente engraçadas, mas incapaz de alcançar a consistência dos melhores trabalhos do diretor.

Na Europa, a avaliação também foi longe de ser unânime, embora o filme tenha despertado posteriormente interesse entre historiadores e estudiosos da comédia americana. No Reino Unido, a produção não alcançou o mesmo prestígio crítico de outras obras americanas do período, sendo frequentemente lembrada mais como uma comédia tardia de McCarey do que como um clássico absoluto. A perspectiva posterior do cinema britânico foi particularmente interessante porque passou a enxergar no filme um retrato involuntário da sociedade americana do final dos anos 1950, marcada pela prosperidade suburbana, pelo medo nuclear e pela Guerra Fria. Na França, a redescoberta do longa foi igualmente ambígua. O Critikat, ao analisar o filme décadas depois, descreveu a produção como uma comédia "aussi fantaisiste que débridée" sobre os excessos do conservadorismo americano dos anos 1950, reconhecendo sua natureza peculiar e seu caráter satírico. Essa avaliação posterior é importante porque ajuda a explicar por que o filme acabou sendo mais interessante para historiadores do cinema do que sua recepção inicial poderia sugerir. O longa mistura a tradição da comédia screwball com temas que estavam profundamente ligados à realidade americana daquele momento, como bases militares, corrida armamentista, medo de ataques nucleares e a transformação das pequenas cidades em subúrbios. Ao mesmo tempo, a crítica europeia também percebeu que a sátira nem sempre era suficientemente afiada e que McCarey frequentemente preferia o humor físico e os conflitos conjugais à análise política. O filme não recebeu indicações ao Oscar nem conquistou grandes prêmios internacionais, embora Leo McCarey tenha posteriormente recebido uma indicação do Directors Guild of America pelo trabalho de direção. Sua trajetória de premiações, portanto, foi modesta, e o reconhecimento mais duradouro acabou vindo da importância histórica do elenco e da carreira de seu diretor.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 1,9 milhão, Rally 'Round the Flag, Boys! era uma produção relativamente importante para uma comédia de 1958, especialmente por utilizar o formato CinemaScope e reunir estrelas em ascensão. O filme obteve cerca de US$ 3,4 milhões em aluguel cinematográfico nos Estados Unidos e Canadá, segundo os dados históricos associados à produção, o que indica que conseguiu recuperar seu investimento e alcançar um resultado comercial razoável. Não existem números internacionais confiáveis e amplamente documentados que permitam estabelecer uma renda mundial comparável aos padrões atuais, algo comum em produções americanas dos anos 1950. O desempenho comercial foi impulsionado principalmente pela popularidade de Paul Newman e pelo interesse despertado pela parceria cinematográfica entre Newman e Joanne Woodward. O público encontrou no filme uma combinação de comédia conjugal, situações de adultério, humor militar e uma sátira relativamente leve da vida suburbana. A presença de Joan Collins como a sensual Angela Hoffa também funcionou como importante elemento de atração comercial. Entretanto, a recepção popular não foi suficientemente entusiasmada para transformar o longa em um dos grandes sucessos da década. As avaliações atuais do público são relativamente modestas: o Rotten Tomatoes registra 45% de aprovação dos espectadores, enquanto o IMDb apresenta aproximadamente 5,9/10. Isso mostra que o filme conquistou uma parcela do público, mas não desenvolveu uma reputação popular comparável à de outras comédias de McCarey. Seu maior valor comercial acabou sendo também histórico: capturou Paul Newman em um momento muito específico de sua ascensão ao estrelato e reuniu o futuro casal Newman-Woodward em uma comédia pouco lembrada de suas carreiras.

Atualmente, Rally 'Round the Flag, Boys! ocupa uma posição bastante curiosa dentro da filmografia de Leo McCarey. Não é geralmente considerado um de seus melhores filmes e está muito distante do prestígio de The Awful Truth, Going My Way ou Make Way for Tomorrow. O Rotten Tomatoes apresenta apenas 30% de aprovação da crítica, baseado em dez avaliações, com média de 5/10, confirmando que a obra permanece controversa entre os críticos contemporâneos. Entretanto, algumas revisões modernas passaram a observar características que talvez não fossem tão evidentes em 1958. O estudo publicado pelo MUBI Notebook considera o filme uma produção esquecida que mistura diversos elementos da sociedade americana do final dos anos 1950 e identifica momentos de verdadeiro encanto dentro de uma narrativa irregular. Historiadores também destacam a maneira como McCarey recupera elementos da comédia screwball, colocando um casal em crise diante da presença de uma terceira pessoa sedutora, mas acrescentando ao modelo tradicional a tensão política da Guerra Fria. Nesse sentido, o filme pode ser visto hoje como um documento cultural particularmente interessante sobre a América de Eisenhower, mais do que simplesmente como uma comédia bem-sucedida. A preocupação com bases de mísseis, a presença do Exército na comunidade, a obsessão pela respeitabilidade social e a sexualidade tratada de maneira relativamente ousada revelam muito sobre os valores e medos daquela sociedade. Também é importante observar que Paul Newman e Joanne Woodward haviam se casado pouco antes da produção, acrescentando um elemento curioso à dinâmica romântica do filme. Dessa forma, embora não seja hoje considerado um clássico essencial, Rally 'Round the Flag, Boys! merece ser redescoberto por admiradores de Newman, Woodward, Joan Collins e da comédia americana clássica, além de oferecer um retrato bastante singular da sociedade americana durante a Guerra Fria.

A Delícia de um Dilema (Rally 'Round the Flag, Boys!, Estados Unidos, 1958) Direção: Leo McCarey / Roteiro: Claude Binyon e Leo McCarey, baseado no livro Rally 'Round the Flag, Boys!, de Max Shulman / Elenco: Paul Newman, Joanne Woodward, Joan Collins, Jack Carson, Dwayne Hickman e Tuesday Weld / Sinopse: Quando o Exército escolhe sua pequena cidade para instalar uma base secreta de mísseis, uma dona de casa decide liderar a resistência local, enquanto seu marido tenta negociar com os militares e se vê envolvido em uma perigosa confusão conjugal provocada por uma vizinha sedutora.

Pablo Aluísio e Erick Steve.